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# 5749



Urubus: rodopiam, rodopiam e falam de morte. A mãe, que tão cedo se foi, gostava de gaivotas.

Vultures: they circle and circle, heralding death. Mother, who passed away so young, used to love seagulls.

Texto | Text:  Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Alexandra Gomes

# 4883



Cato lixo. Desde pequena transito entre a dor de perder o meu pequeno paraíso e o fascínio de dar novos significados ao que restou. Atravessamos o mar. Chegamos à restinga da Marambaia. Encontro uma bonequinha cheia de água e areia e o pedaço de um galho retorcido. Amarro um barbante na madeira e tenho um cachorro. Da boneca viro mãe. Ninguém me diz "larga isso, é sujo." Há descuidos que libertam.

I collect rubbish. Since I was little, I've navigated between the pain of losing my little paradise and the fascination of giving new meanings to what remains. We crossed the sea. We arrived at the Marambaia sandbank. I find a little doll full of water and sand and a piece of a twisted branch. I tie a string to the wood and now I have a dog. With the doll, I become a mother. No one tells me "put that down, it's dirty." There are carelessnesses that set us free.

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

# 4623



Tenha cuidado com o mundo, pise leve para não machucar o cascalho, enterrar as formigas e dissipar a poeira de sua eterna brincadeira de se fingir superfície. Saiba que tudo é frágil. Às vezes, o silêncio é a forma mais profunda de um amor correspondido.

Be careful with the world, step lightly so as not to bruise the gravel, bury the ants and dissipate the dust from its eternal game of pretending to be a surface. Know that everything is fragile. Sometimes silence is the deepest form of reciprocated love.

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Marcelo Celeste

# 4284



Cemitérios são incríveis recantos de paz, pensou. Lugar de nossos silêncios, jardins cobertos por azuis a se apagarem. O céu telhado.

Cemeteries are amazing corners of peace, she thought. Place of our silences, gardens covered by fading blues. The sky roofed over.

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Carla Sofia Sousa

# 4273



Ela vê o que já sabe: o rio de largura imensa, de fundura a se perder. Vem-lhe o seu nome. Tão fácil. Tão forte. Francisca. Retirante. E o que há nela ainda de gente faz- se água em seus olhos. E toda ela vira foz.

She sees what she already knows: the river of immense width, of depth to be lost. Her name comes to her. So easy. So strong. Francisca. Withdrawing. And what is still in her of people becomes water in her eyes. And all of her becomes a river.

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Luana Lessa

# 4044



Doem-me
os pés as mãos
o corpo que carrega a minha violência
que mata a palavra no grito
que não me deixa escrever
dói- me a mulher
que se olha no espelho aos cinquenta
e não sabe mais quem é
dói-me o tempo que não volta
a sua voz que ainda ouço
e a vida toda que ficou

It hurts
my feet, my hands
the body that carries my violence
that kills the word in the scream
that won't let me write
it hurts the woman
who looks in the mirror at fifty
and no longer knows who she is
it hurts the time that doesn't come back
the voice that I still hear
and the whole life that remained

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Frankie Boy

# 4039




Doem-me
os pés as mãos
o corpo que carrega a minha violência
que mata a palavra no grito
que não me deixa escrever
dói- me a mulher
que se olha no espelho aos cinquenta
e não sabe mais quem é
dói-me o tempo que não volta
a sua voz que ainda ouço
e a vida toda que ficou

It hurts
my feet, my hands
the body that carries my violence
that kills the word in the scream
that won't let me write
it hurts the woman
who looks in the mirror at fifty
and no longer knows who she is
it hurts the time that doesn't come back
the voice that I still hear
and the whole life that remained

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Valéria Cunha

# 4037




Doem-me
os pés as mãos
o corpo que carrega a minha violência
que mata a palavra no grito
que não me deixa escrever
dói- me a mulher
que se olha no espelho aos cinquenta
e não sabe mais quem é
dói-me o tempo que não volta
a sua voz que ainda ouço
e a vida toda que ficou

It hurts
my feet, my hands
the body that carries my violence
that kills the word in the scream
that won't let me write
it hurts the woman
who looks in the mirror at fifty
and no longer knows who she is
it hurts the time that doesn't come back
the voice that I still hear
and the whole life that remained

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Irene Bernardt

# 3998



Doem-me
os pés as mãos
o corpo que carrega a minha violência
que mata a palavra no grito
que não me deixa escrever
dói- me a mulher
que se olha no espelho aos cinquenta
e não sabe mais quem é
dói-me o tempo que não volta
a sua voz que ainda ouço
e a vida toda que ficou

It hurts
my feet, my hands
the body that carries my violence
that kills the word in the scream
that won't let me write
it hurts the woman
who looks in the mirror at fifty
and no longer knows who she is
it hurts the time that doesn't come back
the voice that I still hear
and the whole life that remained

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Victoria Petlitskaya

# 3354




De olhos fechados lembro de um sonho que já foi criança.

Texto: Lorena Kim Richter
Fotografia: Mariana Costa

# 3265




Você bem que queria mais do mundo. Só um pouco.

Texto: Lorena Kim Richter
Fotografia: Ana Paula Fadoni

# 2893



Agora os dias contam
Gotas
Caem um por um
Em pedra quente
Cada dia uma nuvem
Se desfaz

E pedra por pedra
Vou traçando o meu caminho
Nunca imaginei andar assim
Sem saber

Antes
Economizava água
Retinha-a
Em cântaros
Ou na retina

Agora não
Quero-a livre
Incessante
Cavando sem rumo
O seu leito

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: João Oliveira

# 2788



Esse ano morreram os meus mestres
Meu pai
Minha mãe
A amiga de tantos anos
Morreu a criança antes da hora
E eu fiquei velha
Os fios brancos tomaram- me a fronte
As sombras negras os olhos

Mas o pássaro
que vive trancado em mim
Ainda gira
Grita por uma janela
Confunde-se com as asas miúdas
Que lhe nascem
Cada vez que digo não

E paira

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Cristina Vicente

# 2306



"Quando Francisco nasceu, o mundo era feio. Todo escuro e gelado.A terra dura, o mar vazio, o rio morto.
Ao lado do córrego, que antes saciava desejo de bicho, jaziam vacas e bois.
De barriga estufada, tripas arrebentadas, a face coberta de dor. Na rua não havia crianças. Os homens tomados de ódio, tropeçavam no silêncio. Às vezes, um pássaro preto rasgava o céu.
Quando Francisco nasceu, havia muito pouco.
Mas ele cresceu, pegou um canto, botou água, botou planta, botou chão.
Aprendeu a tocar sanfona, assoviou pro pássaro preto e chamou o sol.
Quando Francisco morreu, os homens o sepultaram.
Sem ódio, em silêncio e com um punhado de esperança."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Sílvia Bernardino

# 2192



"Quando vejo árvores ao vento, penso:
Desde sempre
Muitos antes
Muito depois
Ouço-as sussurrarem
Rirem de mim baixinho:
Tão pequena, tão breve"

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Regislayne Morais

# 2163



"Quando vejo árvores ao vento, penso:
Desde sempre
Muitos antes
Muito depois
Ouço-as sussurrarem
Rirem de mim baixinho:
Tão pequena, tão breve"

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Selma Preciosa

# 1878



"Nessas horas sempre esfria. Mas há as echarpes e um cobertor. Dois pares de joelhos se fazendo companhia. Um último olhar paira sobre a cidade. A montanha. Lá do alto vemos tudo. Sabemos de tudo. E nos fechamos em silêncio."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Fernando Silva

# 1566



"Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

# 1501



"A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama

O remo firma
O barco corre
De costas

Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço

Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar

E voa"

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert