# 1666



"Aquilo que sou é apenas meu e às vezes nem a mim parece pertencer."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Cristina Henriques

# 1665



"Sempre quis passar despercebida, vestia-se de tons escuros e tudo. Até se julgava invisível aos encostos de outros seres da mesma espécie, por vezes, de estatura maior. Era o único argumento com que os desculpava: o campo de visão de quem tem mais de metro e meio. 
Mas apesar de se sentir invisível, foi-se apercebendo que era ela a criadora dessa ilusão. Todos a viam e isso é que, de facto, a incomodava. 
Certo dia, decidiu vestir o casaco da avó, o chapéu da tia da França e o lenço da vizinha. Pintou o cabelo de vermelho ou talvez tenha pedido a cabeleira à prima que está a estudar para ser artista. As cores vibrantes concretizaram o seu desejo: tornou-se despercebida e, no entanto, tão visível a quem estivesse realmente de olhos abertos."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1664



"Presas numa poesia pessoal as tuas mãos são incapazes de tocar a pele mais próxima.”

Texto: Mónia Camacho

Foto: Maria João Alves

# 1663



"Vivemos rodeados de famílias. Famílias com problemas familiares."

Texto: Vítor Vieira
Foto: Fernando Silva

# 1662



"Fala-me da tua desesperança. Segreda-me os teus silêncios. Preciso."

Texto: Leonor Lourenço
Foto: Carla de Sousa

# 1661




"Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes, que sinto serem elas, as ruas, a observarem-me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais "é a vida!", "são todos uns ladrões" ou " amanhã vai chover ". No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:" São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. "Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais - caso existam - que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples"

Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert

# 1658



“Respiro... De olhos abertos, escolho o ar que alimenta o sonho e preenche as fissuras de ilusões mascaradas.”

Texto: Catarina Vale
Foto: Raquel Ferreira Coimbra

# 1657



"Podemos pedir o que não sabemos dar?"

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Tânia João

# 1654



"Agora entendo o chilrear feliz dos pássaros. Têm asas!"

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Sílvia Bernardino

# 1653



"Por isso não vivo, sonho. Por isso não penso, imagino. Por isso não compreendo, sinto."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Teresa Bret Afonso

# 1648



"E o fim cheira sempre a inicio. A primavera."

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Peter A. Gilbert

# 1647



"É-te mais fácil o uso do meu corpo se eu não tiver um rosto, olhos que interroguem?"

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Maria João Alves

# 1646



"Nunca sentiste que a liberdade te prende?"

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1645



"Sabia-o o maior dos clichés, mas onde encontraria maior beleza do que na grandiosa pequenez da simplicidade?"


Texto: Patrícia Martins
Foto: Teresa Bret Afonso

# 1644



"Mas há momentos (raros) em que existir simplesmente preenche todos os vazios de sentido. É neles, na serenidade de quem se resigna ao facto de que a vida é complicada mas vale a pena, que devemos começar a procurar a felicidade."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Tânia João

# 1643



"Fazia já algum tempo que não se via ao espelho depois de sair da banheira, antes de ir trabalhar. Um hábito que se perdeu, assim como o trabalho que se esvaneceu num magro subsídio, prestes a caducar. O que seria da vida dela, questionava-se vezes sem conta.
Porém, naquele dia parou diante do espelho, não se recorda do tempo que passou a contemplar a embalagem que notava sinais de degradação. Contemplou-o como se contemplasse "A carcaça" de Soutine, tal como o fazia diante do calendário do talho onde trabalhara em tempos. Pelo menos, era um calendário de qualidade, pensou. Não exibia porcos nem outros animais abatidos para consumo e que, possivelmente, se expunham numa das suas vitrines.
Olhou-se, mas quis ver-se mais. Foi à cozinha buscar o estojo de cutelaria da especialidade em corte de carnes verdes. Dominava a técnica como ninguém. Talvez um resquício do desejo perdido de se vir a tornar cirurgiã...
Voltou, munida do estojo que expôs de forma organizada sobre a bancada. Escolheu o instrumento mais afiado e no seu reflexo, traçou uma linha entre as mamas de onde escorreu uma linha de um fluído encarnado. Continuou a operação até conseguir chegar ao seu interior, cortando pedaços de carne até chegar ao entrecosto. Deu um golpe certeiro com o cutelo para fraturar o esterno e ver mais de si. Queria tocar o seu interior. Afastou as costelas e, com uma das mãos ensanguentadas, apalpou o pulmão esquerdo. Sabia que o coração já não batia. Do pulmão tirou todas as manchas provocadas pelos cigarros que apagava no corpo. Uns atrás dos outros. Depois das manchas retiradas, uma a uma, fazendo-as desaparecer todas, também ela se apagou."

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1642



"Sonhar e sentir: não é mais ou menos igual?"

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Sílvia Bernardino

# 1641



"O cio é sagrado e a terra o altar onde me rebolo nua."

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Cristina Henriques

# 1638



"Inventei-me de novo? Ou nasci de novo? Ainda não sei!"

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Ana Gilbert

# 1637



"Fico assim meio tonto quando me chamas Doistoiévski. Como se
isso fosse uma espécie de fronteira entre o crime do sexo e o castigo
da morte, um onanismo rústico povoado de estepes e escuridão."

Texto: José Alberto Vasco
Foto: Rui Gomes

# 1636



"E o menino disse: - Um dia quero ter a forma das nuvens, como eu as imagino."

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Teresa Bret Afonso

# 1635



"Eu não tenho história."

Texto: Vítor Vieira
Foto: Maria João Alves

# 1634



"De todas as vezes que me obrigaste a comer sopa em criança, guardei cada uma das molas que usavas para me apertar o nariz. Deixava de respirar e tinha de abrir a minha pequena boca para onde atiravas uma colher daquela mixórdia que dizias fazer-me bem. Sustive o vómito tantas vezes, mãe, e tu foste ficando sem molas para estender a roupa. Hoje, já crescida e cansada encontrei a solução para não me obrigarem a comer o que a vida me quer dar. E funciona, vê tu bem. Da tua sopa não lhe sinto a falta, de ti, sim e, como sei que onde estás não se fazem sopas, decidi juntar-me a ti."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1633



“Finges não perceber o que me acontece.”

Texto: Ana Gilbert
Foto: Chico Vilaça

# 1632



"Viver sem paixão é uma espécie de morte."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1631



"Dentro mim não há silêncio nem gritos. Só o burburinho de muitas vozes."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Elisabete Antunes

# 1630



"O calor da lareira e o conforto do chá príncipe, aqueciam-lhe a alma, e a memória de quando lhe chamavam princesa. Adormeceu, e na manhã seguinte pintou os lábios de cor de rosa, na esperança de enfeitar os pequenos sulcos que a idade já não disfarçava.”

Texto: Patrícia Martins
Foto: Paula Melo

# 1629



"Por vezes, o tempo avança tornando os dias em segundos impossíveis de deter."

Texto: Catarina Vale
Foto: Ana Marques

# 1628



"Tentei suicidar-me numa imersão de queijo roquefort e espumante de
segunda categoria. Esse malfadado desígnio consumiu-se na promessa de
uma charlotte de morangos em palitos de la reine, embebidos em kirsch.
Continuo com esta mania meio parva de tentar transformar os nossos
sonhos em arte. Poesia descritiva, como tu seguramente dirias,
ostentando esse teu sorriso letal."

Texto: José Alberto Vasco
Foto: Frankie Boy

# 1627



"Para os que amamos
Não há longe nem distância
Apenas uma ânsia
De poder dizer...
Vamos!"

Texto: Cláudia Jerónimo
Foto: Sílvia Bernardino

# 1626



"O tempo é um consumível escasso que não permite reutilização."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Cristina Henriques

# 1621



"Adormecia, sempre, na esperança de que ao acordar o mundo aguardasse para ser tocado pela primeira vez. O estado mais puro de tudo. A perceção da inocência da espera que não sabe o que esperar. Respostas isentas de ensaios libertadas pelo que se fez sentir. Talvez, o único momento em que a verdade não saberia ser mentira...Adormecia a procurar no sonho a certeza da vida. A fuga de uma existência confundida na dos outros. E os outros confundidos no que são, retalhados pelo que querem ser, denunciam-se nas palavras privadas dos gestos que as fazem valer. Será que é por sermos tantos num só que vivemos impossibilitados de conhecer o nosso rosto? Aguentaríamos ver quem pensamos ocultar? 
Adormecia sem saber quem encontraria pela manhã. Sem saber qual a memória que lhe iria reger a mente ou quantas batidas lhe permitiria o coração. A imprevisibilidade que desperta o instinto e redescobre as emoções, transformando-nos em seres impossíveis de controlar. A surpresa de irmos onde nunca sequer deixámos encaminhar-se o pensamento. A compreensão do que sempre foi arrevesado. Vazio que aumenta assim que se consegue completar. 
Adormecia... Sossego da alma na calma do corpo..."

Texto: Catarina Vale
Foto: Ana Gilbert

# 1620

 


"Somos um conjunto de transparentes memórias. Infinitas sobreposições de imagens feitas de água e vidro."

Texto: Joana M. Lopes
Foto: Célia Guerra