# 1610



"Ergo a estátua da tua ausência, roubando a forma aos corpos que se confessaram ao meu sexo depois de ti."

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Frankie Boy

# 1609



"Para os que amamos
Não há longe nem distância
Apenas uma ânsia
De poder dizer...
Vamos!"

Texto: Cláudia Jerónimo
Foto: Sílvia Bernardino

# 1608




“A minha bússola interior és tu. O caminho é apenas o caminho.”

Texto: Mónia Camacho
Foto: Peter A. Gilbert

# 1607



"- Gosto de começar pelo princípio... adoro o princípio das coisas! - murmuraste-me assim ao ouvido. As tuas palavras são sempre um murmúrio que só eu ouço. As inflexões, o timbre, a ressonância sugam-me a atenção, como um ponto de fuga num desenho ou numa qualquer composição. Avançaste em direcção a mim, pela diagonal daquela sala escusa e cheia, fitando-me, para me anunciares esse prenúncio de início. Estremeci. Sei que tu sabes que estremeci. Sei que o teu princípio, o nosso princípio, é assim." 

Texto: Clara Vales
Foto: Luís Miguel Grou

# 1606



"Escorrem-me lágrimas por um único fio de cabelo. Não mereces mais do que um fio e, no entanto, as lágrimas são tantas..."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1603



"Tempo é uma invenção dos homens que não creem na imortalidade."

Texto: Joana M. Lopes
Foto: Carla de Sousa

# 1602



"O que nos protege do mundo também protege o mundo de nós. O mundo lá passa, sem nos ver completos, sem nos perceber completos; vê as nossas cortinas, apenas. Protegemo-nos do mundo e, por isso, o mundo vê-nos parcialmente, vê um fragmento, uma sombra, uma aparência de nós. Mas será isso que desejamos verdadeiramente? Manipulamos o que o mundo vê de nós e achamos isso inteligente e sensato, pragmático; mas sê-lo-á?"

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1601



"Danço, secretamente nua, por baixo do véu da realidade."

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Ana Gilbert

# 1600



"Aqui, na submersão fria, também a luz atravessa a água e os musgos que se agitam como verdes chamas, a luz adentra‑me e alguma coisa semelhante a um Eu também é atravessado."

Texto: Joana M. Lopes
Foto: Cristina Henriques

# 1599



"Todas as noites ela despe-se dos sonhos do dia. Lava o rosto, retoca o baton e coloca as roupas da noite. Sai. A vida espera-a."

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Célia Guerra

# 1598



"Olha-me como se eu fosse uma janela."

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Maria dos Santos

# 1597



"Estremeço, sou um homem que vem para morrer, sou um homem que vem para nascer dessa morte, agora que estou finalmente lúcido, venho curar‑me."

Texto: Joana M. Lopes
Foto: Fernando Silva

# 1593



“Não conseguia decifrar em que pensava, o que sentia, a vontade que lhe subia ao peito e faria mover as mãos.”

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Paula Melo

# 1592



"Vivera e morrera naquela casa. Acabou sozinha e fora enterrada no lugar dos sem-nome. Apenas um número, 1189, cujo terreno que, com o tempo, seria de um outro corpo destinado à sua decomposição e assim sucessivamente.
E por essa razão, porque a matéria desaparece, mas a alma permanece, decidiu ficar a habitar naquela que fora sempre a sua casa, não fosse ela ser invadida por outros corpos. Qualquer tentativa seria, por ela, assombrada, não por maldade, mas para preservar a sua existência. Não quis descansar em paz. Quis ficar em casa para sempre."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1591



"Se abrires a janela, todos os sonhos serão possíveis."

Texto: Vanda Balão
Foto: Sónia Silva

# 1590



"Carrego uma lâmina sob a pele. Fria, cortante, protetora. Afasta-te de mim; afasta-me de ti, de todos, de mim. Sangro. E (quase) não sinto."


Texto: Ana Gilbert
Foto: Frankie Boy

# 1589



"Não nos restam eternos nem infinitos e fazem-nos muita falta. Sem eles ficamos perdidos, sôfregos, à procura de mais em tudo."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Chico Vilaça

# 1588



"Sabia-o o maior dos clichés, mas onde encontraria maior beleza, do que na grandiosa pequenez da simplicidade?"

Texto: Patrícia Martins
Foto: Cristina Henriques

# 1587



"Vivo no átrio onde se cobrem de carmim as alvas pombas."

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Rui Gomes

# 1586



"Procuravas a carne, mergulhaste no sangue. Raso de emoções... Cravejei-te de prazer..."

Texto: Catarina Vale
Foto: Carla de Sousa

# 1584



"Como se apaga o que se marca no vazio? Como se deixa de ouvir o que ecoa dentro de nós?"

Texto: Catarina Vale
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1583



"O seu único talento: descortinar as subtilezas da vida."

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Tânia João

# 1582



"Sentia-se agrilhoado numa pele que nunca sonhara sua."

Texto: Patrícia Martins
Foto: Luís Miguel Grou

# 1581



"Geralmente, fugimos porque algo nos persegue. E a maior parte das vezes esse algo somos nós próprios."

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Maria dos Santos

# 1580



"Sentia a sua cabeça tão vazia como um buraco negro, como se o encontro fortuito com algumas pessoas fosse o maquiavélico carregar no reset, que lhe apagava momentaneamente o discernimento." 

Texto: Patrícia Martins
Foto: Célia Guerra

# 1579



"Nunca entendera a expressão "dar pérolas a porcos". Para que quereria um porco usar um colar de pérolas? As pérolas preciosas criadas pelas ostras e cuspidas diretamente para os pescoços femininos em festividades. Quantas terão tido esse real privilégio? Quantos desses pescoços desnudados vestiram apenas uma reles imitação, oferecida por um tal senhor, para lhes dar o ar de altivez desmerecido? Um porco é um porco e não precisa de pérolas para ser um animal mais nobre."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1578



"Importa-se de parar de olhar para mim?"

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Ana Gilbert

# 1577



"Todas as histórias que chegam ao fim são tristes, pois trancam uma porta atrás de si."

Texto: A. M. Catarino
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1576



"Poderá a soma dos corpos subtrair a solidão?"

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Rui Gomes

# 1575



"Seremos nós a imaginar o mundo ou será o mundo imaginário?"

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Cristina Henriques

# 1573



"Entre as minhas pernas há um lugar secreto, onde apenas alguns podem entrar. Tu, não."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Carla de Sousa

# 1572



"Quando voou, percebeu o quanto cansada estava de andar."

Texto: Catarina Vale
Foto: Selma Preciosa

# 1571



"Olho-me no reflexo dos fragmentos que me espelham. Estou preso no muro de paredes brancas impessoais e inabitadas."

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Célia Guerra

# 1570



"Será a última vez?
Vou-te ter como se fosse...
Chegarei a ti, onde me esperas sempre, decidida a contemplar aquele lugar com a sua melhor recordação. Também ele guarda lembranças, constrói a sua história com o que rouba de nós. Assimila cada uma das sensações que fremem intensamente no ar. 
Aguarda-me, mas será outra a chegar por mim. Concebida em sangue que corre na ausência, alimentada pela fome de te ter. Serei o que nunca fui e tu nunca pensaste existir. Enclausurada em tempo que se perdeu. Um tempo que aproxima desejos, quebra pudores e exacerba o apego.
O reencontro de existências que se dissolvem numa só. O meu corpo a tomar conta do teu. Suores absorvidos pela pele na ressaca de um vício impossível de curar. A levitação do mais insano dos prazeres. Assomamos à esfera da utopia, onde só juntos poderemos chegar.
Abandono-te aí... Regressando pelo trilho construído em crenças estilhaçadas. Convicções continuamente reerguidas que não te cansaste de arruinar. Regresso na ousadia de provares o melhor dos dois. A excitação que desconhecias ser possível de sentir...
Liberto os sentidos impregnando de memórias os teus. Preso no que recusavas dar, arrastarás a loucura na busca do que só eu poderei saciar. Pedaços de nada, matéria sem cor, vestígios ocos do sonho redigido em nós.
Irónico amor que na última vez mais se faz ressurgir..."

Texto: Catarina Vale
Foto: Tânia João

# 1569



"Somos feitos de palavras."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Frankie Boy

# 1568



"O frio abateu-se sobre o meu corpo rígido. A dança presa nos teus olhos distantes."

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 1567



"Nós somos nuvens de pétalas e cio."

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Elisabete Antunes

# 1566



"Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

# 1565



"Lavo daqui as minhas mãos! O trabalho sujo é da tua responsabilidade: o sangue que te corre entre os dedos, lambo-o para te proteger. É por amor que o faço, não por ti." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1564



"Mertens dançante de regresso à minha rua,
devolvendo-me a Lua Cheia
em noite de chuva miudinha."

Texto: José Alberto Vasco
Foto: Luís Miguel Grou