# 2836



O teu cheiro a poesia rouba a minha serenidade.

Texto: Renata Barbosa
Foto: Goretti Pereira

# 2835



Espero-te na exigua imensidão da esquina da Rua do Para Sempre com a da Ilusão Permanente.

Texto: Clara Ribeiro
Foto: Francisco Válga

# 2834



Trazes a vida guardada na algibeira, amordaçada para não pedir socorro. Finjo que não a escuto quando te abraço, e prolongo-me em ti para a sossegar.

Texto: Catarina Vale
Foto: Rah Pha

# 2833




Podia contar os segundos pelas estrias da tua pele e assim alcançaria o tempo em que a tua ausência te revelou sempre presente.

Texto e foto: Carla de Sousa

# 2832



O senhor das meias!

Num mundo de meias vidas e vidas pela metade, ele era o rei e senhor.
Trabalhava pela metade, não fosse ficar demasiado afadigado para o meio dia em que nada fazia. No ginásio havia regateado embolso e por apenas meio preço fazia metade dos exercícios, uma parte dos quais eram realizados em observação criteriosa das moças inteiras que vestiam pela metade e deambulavam pelo sítio.
Sempre que ia às compras despendia meio tempo a analisar folhetos de promoções e comprava metade do que fazia falta, outra metade do que nunca usaria. Com o vestuário agia da mesma forma, i.e., comprava roupa conformada a gente com metade da sua idade, metade do seu peso, metade de si, numa tentativa de se manter meio do que se sabia.
A vida amorosa era mais um terreno fértil de metades injustificáveis. Tinha meias relações que se baseavam em sentimentos pela metade, noites de prazer acervadas a meio para que a intimidade não se completasse, mulheres de quem nunca saberia o nome inteiro uma vez que menos de metade chegava para que o seu intuito de meia companhia se cumprisse. Ah! E nem na cama largava as meias. Sim, nu integral, mas sempre com as meias presentes.
Algures pelo meio desta vida vivida pela metade, com meias inferências de tudo o que poderia ter sido completo, teve uma meia epifania e resolveu partir para visitar meio mundo. Afinal de que valia estar já a meio da vida, finasse ela quando fosse, se não vivesse pelo menos metade do que havia vivido?
Reza a história que o nosso senhor das meias, a meio do ano seguinte a largar a sua meia vida, se completou ao morrer de amores por inteiro de uma dama que não se contentou nunca com metades de coisa nenhuma. E viveram felizes para sempre, no seu reino de plenitude vivida a meias!

Texto: Clara Ribeiro
Foto: Ana Gilbert

# 2831



Às vezes, apetece-me perder na solidão.

Texto: Vítor Vieira
Foto: Raquel Ferreira Coimbra

# 2830




O caminho é longo para chegar, mas longuíssimo é o tempo de ficar.

Texto: Renata Barbosa
Foto: António Carreira

# 2827




Rasguei os olhos de luz. Doeram-me as palavras e a distância. Fiquei quieta na imunidade do que te queria sentir. Emudeci a chuva e humedeci o vento, deixei-o cansado de esperar. Não fui nem fiquei, deixei-me apenas embalar pela insuficiência de não saber ser, sem ti.

Texto: Elisabete Neves
Foto: Elsa Arrais

# 2826




Os nossos sons são sublimes, os silêncios repletos de conteúdo.

Texto: Clara Ribeiro
Foto: Maria Jorge Soares

# 2825








São os sentidos que alimentam a saudade.

Texto: Paulo Kellerman
Fotos: Sílvia Bernardino

# 2824




Atiro o corpo ao prazer como quem atira um cordeiro às feras.

Texto: Rosa Boto Caiado
Foto: Diana R. Castro

# 2823




Hodiernamente as saudades domiciliam o seu ser.

Texto: Clara Ribeiro
Foto: José Luís Jorge

# 2822




O tempo. O tempo está horrível. Não temos tempo. O tempo passa depressa por nós. Não sabemos o que fazer com o tempo.Há tanto tempo que não nos vemos.Não descobrimos tempo para saber o que fazer com o tempo que nos resta.Gostamos de voltar ao tempo que já passou. O meu tempo é diferente do teu e do vosso. O implacável tempo.

Texto: Vítor Vieira
Foto: Ana Rodrigues

# 2821



Vamos dançar?
Pus a tua música favorita a tocar… O vento…

Texto e vídeo: Teresa Bret Afonso

# 2820




Quando alguém se distrai do mundo e de si próprio, dá mais ao outro.

Texto: Ana Miguel Socorro
Foto: Vanda Cristina

# 2819




E se amanhã não estiver lá quem queremos? Se não conhecermos os locais onde estamos? Se nada for igual ao garantido? Se o garantido deixar de existir porque nós já lá não estamos?

Texto: Clara Ribeiro
Foto: Renata Barbosa

# 2818




De paisagem em paisagem, avançamos sem destino.

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Maria dos Santos

# 2815



És poesia,
que passa na praça,
apressada,
instante nos meus olhos.

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Ana Gilbert

# 2814



A minha poesia é muito mais sonhada do que escrita.

Texto: Vítor Vieira
Foto: Elsa Arrais

# 2813



[a minha claustrofobia]

Claustrofobia:
estar fechada
e imobilizada,
dentro de uma sala vazia,
com a porta escancarada.

Texto: Andreia Marques
Foto: Carla de Sousa

# 2812



Desp(ed)ir-me de mim mesmo é (des)cobrir-me de novo.

Texto: Nuno Pinto Bastos
Foto: Cristina Vicente

# 2811



Todos temos arestas e partes moles. Ambas ferem.

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Ana Leiria

# 2810



Penso sempre em ti quando vejo nuvens bonitas.
E quando não vejo nuvens bonitas fico a pensar em ti até as ver.

Texto: Fernando Silva
Foto: Chico Vilaça

# 2809



O tempo arrasta-se pela cidade, à tua procura.

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Maria Jorge Soares

# 2808




Ergueu-se e esticou-se o mais que pôde. Estava ansiosa para encontrar o amor.

Texto e foto: Patrícia Grilo

# 2807



Na solidão encontro lugares em mim que nunca conheci.

Texto: Nuno Pinto Bastos
Foto: Fernando Silva

# 2806



Os rios secam. Nem as lágrimas dos homens arrependidos os salvam.

Texto: Ana Miguel Socorro
Foto: Rah Pha

# 2804



zurze o vento lá fora
urge agora o momento
dentro do beijo
uma casa ao desejo
que nos habita.

Texto: Helder Magalhães
Foto: João Oliveira

# 2803




Carrego em mim o peso da saudade que só comigo partilho!

Texto: Maria João Rocha
Foto: Frankie Boy

# 2800




Sonho perdido em ti. Leio poemas nos teus ouvidos.

Texto: Nuno Pinto Bastos
Foto: Carla de Sousa

# 2799




Saí de pés descalços, alado de saco ao peito. Contei as três balas cravadas no meu escalpe e lembrei o passado. Guardei no saco, a lanterna para os dias escuros e um batom vermelho
para as noites iluminadas. Nunca se sabe do que se precisa, quando procuramos a ausência na gravidade das horas.

Texto: Rita Rosa
Foto: Chico Vilaça

# 2798




Falo com as minhas plantas como se falasse contigo. Sei que vais aparecer no desabrochar da mais bela flor ou no nascimento da folha mais delicada. Talvez porque me ensinaste a procurar a beleza nas coisas mais simples.
Quantas vezes paramos para observar a serenidade de uma flor a abrir, de uma folha a desenrolar? Quantas vezes nos permitimos desacelerar na celeridade dos dias?
Quantas vezes vimos o outro na sua forma mais pura, mais inocente?
E será que deixamos que o outro nos veja dessa forma?

Texto: Liliana Silva
Foto: Ana Rodrigues

# 2797



Voo, plano, observo, esvoaço.
Procuro, encontro, conheço, hesito.
Recomeço.
Quantos recomeços suportarão as tuas asas?

Texto: Patrícia Grilo
Foto: José Luís Jorge

# 2796



Nos olhos cansados que se fecham, descansa o coração em paz.

Texto: Nuno Pinto Bastos
Foto: Francisco Válga

# 2794




frutos do bosque não seriam o mesmo
e não saberiam ao mesmo
se ditos a vermelho, frutos vermelhos

Texto: Isabel Pires
Foto: João Oliveira

# 2793




A noite acontece dentro de mim e já não estás.

Texto: Ana Gilbert
Foto: Peter A. Gilbert

# 2792




Busco as verdades no despir do teu corpo. Será amor?

Texto: Jorge Gomes Pereira
Foto: Fernando Silva

# 2791




Porque olhas para trás, se o presente está à tua frente?

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Teresa Maria dos Santos

# 2790



Na solidão encontro lugares em mim que nunca conheci.

Texto: Nuno Pinto Bastos
Foto: Maria Jorge Soares

# 2789




Podes libertar-me. A vida já me ensinou a voar sozinha.

Texto: Patrícia Grilo
Foto: Rah Pha

# 2788



Esse ano morreram os meus mestres
Meu pai
Minha mãe
A amiga de tantos anos
Morreu a criança antes da hora
E eu fiquei velha
Os fios brancos tomaram- me a fronte
As sombras negras os olhos

Mas o pássaro
que vive trancado em mim
Ainda gira
Grita por uma janela
Confunde-se com as asas miúdas
Que lhe nascem
Cada vez que digo não

E paira

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Cristina Vicente