# 4656



Nicanor sabia e afirmou,
por melhores palavras, que
a poesia deve ser como o ar
acessível a todos, para que se respire
(onde se lê ar acrescente-se água e alimento)

sabemos
há quem discorde
há quem mate
há quem se oponha
à vida

Nicanor, também eu hei-de
morrer de poesia,
se lá chegar.


Nicanor knew and stated,
with better words, that
poetry should be like air
shared, so that everyone may breath
(where one reads air add water and food)

we know
there's discordance
there's killing
there's those who oppose
to life

Nicanor, I will also
die of poetry,
if I get there.

Texto | Text: José Manuel
Fotografia | Photography: Kika Yuste

# 4655



O que somos? Pedras em bruto lentamente esculpidas pelo génio da vida.

What are we? Rough stones slowly sculpted by the genius of life.

Texto | Text: Joana M. Lopes
Fotografia | Photography: Luana Lessa

# 4654



As mãos. O espaço vazio entre os dedos. Há quanto tempo estaria assim, por preencher?

The hands. The empty space between the fingers. How long had it been like this, unfulfilled?

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Madame Liné

# 4653



Deus construiu o mundo com banalidades. Delas, fez-se o extraordinário.

God built the world with banalities. From them, the extraordinary was made.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Callie Eh

# 4652



Aguardo a hora do dia em que a luz explode sobre a tua pele e me atinge o olhar com os seus estilhaços. O desejo cega-me.

I wait for the time of the day when the light explodes on your skin and hits my eyes with its shards. Desire blinds me.

Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Elsa Martins

# 4651



Catedral

Ainda não o sabes.

Da arquitetura do silêncio
Tenho erguido uma catedral
Do interior mais para dentro.

Da liberdade que me sustem
Tenho içado como pilares
Mais altos todos os sonhos.

São vitrais os meus olhos
Onde intencionalmente incide
Fragmentada uma certa luz.

E são naves os meus dedos
De prolongamento infinito
Estendendo-se desde o altar.

De cada banco desse templo
Tenho rezado em segredo
Pelo fim da tua ignorância.


Cathedral

You don't know it yet.

From the architecture of silence
I have built a cathedral
From the interior further inwards.

Of the freedom that sustains me
I have hoisted as higher
Pillars all the dreams.

Stained glass are my eyes
Where intentionally occurs
Fragmented a certain light.

And ships are my fingers
Of infinite prolongation
Extending from the altar.

From every every bench in this temple
I have been praying in secret
For the end of your ignorance.

Texto | Text: Maria Moreno
Fotografia | Photography: Jelena Stankovic

# 4650



alma
sem
tecto
deseja
corpo
alado

soul
without
roof
desires
winged
body

Texto | Text: Mafalda Carmona
Fotografia | Photography: Carolina Geiger

# 4649



Futuro: janela de luz num quarto escuro.

Future: window of light in a dark room.

Texto | Text: Joana M. Lopes
Fotografia | Photography: Kate Hrynko

# 4648



Talvez um dia percebas: é na aparente fragilidade que revelo a minha força.

Maybe one day you'll realize: it's in my apparent fragility that I reveal my strength.

Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photography: Karen Ghostlaw Pomarico

# 4647



Pode o silêncio
ser o maior dos estrondos
que já ouvi?

Can silence
be the loudest of all noises
I’ve ever heard?

Texto | Text: Maria Ervilha
Fotografia | Photography: Mariana Costa

# 4646



Tempo é tudo o que não tenho dentro de mim.

Time is everything that I don't have inside of me.

Texto | Text: Andreia Peixoto
Fotografia | Photography: Lynne Buchanan

# 4645



As mãos. O espaço vazio entre os dedos. Há quanto tempo estaria assim, por preencher?

The hands. The empty space between the fingers. How long had it been like this, unfulfilled?

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Michèle Polak

# 4644



Céu rosa d’Outono
No olhar o mar reflectido
Ondas ao reverso

Nuvens são finos farrapos,
Que abraçam corpos celestes.


Pink Autumn sky,
In the gaze, the sea reflects,
Waves in reverse flows.

Clouds, wispy rags embrace,
Celestial bodies holds.

Texto | Text: Mafalda Carmona
Fotografia | Photography: Maria Ankhimyuk

# 4643



Escrever impossíveis. Sonhar impossíveis. Haverá outra forma de delírio?

Writing impossible things. Dreaming impossible dreams. Is there any other form of delirium?

Texto | Text: Cristina Vicente
Fotografia | Photography: Maria Moreno

# 4642



A sazonalidade das cerejeiras pintou os quadros de silêncio onde me habituei a crescer, como os ramos.

The seasonality of the cherry trees painted the frames of silence where I used to grow, like the tree branches.

Texto | Text: Andreia Mateus
Fotografia | Photography: Marilyn Strauss

# 4641



Sem argumentos válidos, o absurdo grita demasiado alto. Pouco barulho, se faz favor.

Without valid arguments, the absurd shouts too loudly. Keep it down, please.

Texto | Text: Sandra Francisco
Fotografia | Photography: Vilma Serrano

# 4640



Daqui, olho para um presente que agora é passado e sinto que ainda lá estou.
Será que não faz tudo parte do mesmo tempo?

From here, I look at a present that is now the past and I feel like I'm still there.
Isn't it all part of the same time?

Texto | Text: Sofia Melo Esteves
Fotografia | Photography: Valéria Cunha

# 4639



Pele era pele e não castigo. Num corpo escondido, encobriam-se as verdades e as vontades. Não haveria no mundo leveza enquanto houvesse, entre os corpos e os sentires, um cerco de pano rendilhado. Que lhe tirassem as molas, as rendas, as fibras que sustentam e as amarras costumeiras. Que o fizessem sem muros e modas. Que não o fizessem. E a cordilheira do ponto mais alto da sua liberdade agradecia.

Skin was skin and not punishment. Truths and desires were concealed in a hidden body. There would be no lightness in the world as long as there was a siege of lacy cloth between bodies and feelings. Let them remove the springs, the lace, the supporting fibers and the usual ties. Let them do it without walls and fashions. Let them not. And the mountain range at the highest point of its freedom would thank them.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Cláudia Rosa

# 4638



De quantas esperas é feito o amor?

How many waits is love made of?

Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photography: Giorgos Kitsos

# 4637



Anda
Vem rasgar a noite
Como se um deus qualquer
Nos devolvesse a eternidade

Come on
Come tear the night
As if some god
Gives us back eternity

Texto | Text: Cátia Ribeiro
Fotografia | Photography: Eliane Khoury

# 4636



Tento jogar às escondidas com o tempo mas ele encontra-me sempre.

I try to play hide and seek with time but it always finds me.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Sérgio Kaufmann

# 4635



Ficar é ter vontade de partir.

To stay is to want to leave.

Texto | Text: Cristina Vicente
Fotografia | Photography: Pedro Bogarin

# 4634



Há dores de crescimento que só a leveza de um corpo nu consegue suportar.

There are growing pains that only the lightness of a naked body can support.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Semmada Arrais

# 4633



Dos lugares que deixam de existir, resta-nos os caminhos esquecer...

Of the places that no longer exist, we are left with the paths to forget...

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Beatrice Calastrini

# 4632



Não deixa de se encantar o amor que não permite ao tempo que ele deixe de existir...

Never ceases to enchant itself the love that doesn't allow time that it ceases to exist...

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Cristina Vicente

# 4631



Pode o silêncio
ser o maior dos estrondos
que já ouvi?

Can silence
be the loudest of all noises
I’ve ever heard?

Texto | Text: Maria Ervilha
Fotografia | Photography: Pascaline Godard

# 4630



Pergunto-me porque é que entre o ser sem existir e o existir sem ser, tento pateticamente ocultar o tempo que passa e as rugas que ficam. Contas feitas, ninguém vai reparar.

I wonder why between being without existing and existing without being, I pathetically try to hide the time that passes and the winkles that remain. Math done, no one will notice.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Anna Monica Rigon

# 4629



Fecho os olhos. A tua voz a rasar a minha pele. Desperta a existência em toda a sua intensidade. O toque que não o chega a ser. O corpo inebriado apenas por te escutar. A cada palavra um desejo. A cada frase a devoção...

I close my eyes. Your voice scraping my skin. It awakens existence in all its intensity. The touch that does not come to be. The body inebriated just by listening to you. Every word a desire. Each phrase a devotion...

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Frankie Boy

# 4628



Meninas de Velásquez

Reparem bem nas meninas mulheres
Trancadas nos espelhos
Nos museus. Imobilizadas
Em retratos de artista
Envelhecidos
E que não cresceram
E não amadureceram
Reparem bem nos seus corpos franzinos como frutos verdes
Como Primaveras adiadas. Tardias
Sem nunca terem sido jovens
Nem conhecido a estação certa
E caíram no chão
Secas
Reparem bem como são pouco atraentes
Apolíneas. Sem formas. Retilíneas
Como se escondem debaixo dos vestidos
De cruz ao peito e alma recolhida
Em terços
Reparem bem como são diferentes das mulheres voluptuosas
Sinuosas. Dionisíacas. Embriagantes
São só água clara
Lavada. Transparente
Reparem bem nos seus seios redondos
Presos. Intactos. Sem uso
Nem bocas nas auréolas
Reparem bem como se somem
Esbatidas
Na sombra.


Velasquez girls

Take a good look at the women
Locked in mirrors
In museums. Immobilized
In artist's portraits
Aged
And haven't grown up
And have not matured
Look at their frail bodies like unripe fruit
Like delayed springs. Late
Without ever having been young
Or known the right season
And fell to the ground
Withered
Notice how unattractive they are
Apollonian. Shapeless. Straight
How they hide under their dresses
With a cross on their chest and their souls recollected
In rosaries
Notice how different they are from voluptuous women
Sinuous. Dionysian. Intoxicating
They're just clear water
Washed. Transparent
Look at her round breasts
Trapped. Untouched. Unused
No mouths on her areolas
Notice how they disappear
Faded
In the shadows.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Elsa Arrais

# 4627



Há paredes que são memórias,
lugares de uma só voz...
Aproxima-te, onde ficou a tua?

There are walls that are memories,
places of a single voice...
Come closer, where was yours?

Texto | Text: Cristina Vicente
Fotografia | Photography: game.animal

# 4626



Daqui, olho para um presente que agora é passado e sinto que ainda lá estou.
Será que não faz tudo parte do mesmo tempo?

From here, I look at a present that is now the past and I feel like I'm still there.
Isn't it all part of the same time?

Texto | Text: Sofia Melo Esteves
Fotografia | Photography: Gwen Julia

# 4625



Olho à volta. Abro a janela. Respiro fundo.
Mesmo assim não há oxigénio suficiente para te dizer o quanto me sufocas.
Respiro fundo. Olho o chão. Fecho a janela.

I look around. I open the window. I take a deep breath.
Still, there isn't enough oxygen to tell you how much you suffocate me.
I take a deep breath. I look at the floor. I close the window.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Mauricio d'Ors

# 4624



Céu rosa d’Outono
No olhar o mar reflectido
Ondas ao reverso

Nuvens são finos farrapos,
Que abraçam corpos celestes.


Pink Autumn sky,
In the gaze, the sea reflects,
Waves in reverse flows.

Clouds, wispy rags embrace,
Celestial bodies holds.

Texto | Text: Mafalda Carmona
Fotografia | Photography: Cristina Vicente

# 4623



Tenha cuidado com o mundo, pise leve para não machucar o cascalho, enterrar as formigas e dissipar a poeira de sua eterna brincadeira de se fingir superfície. Saiba que tudo é frágil. Às vezes, o silêncio é a forma mais profunda de um amor correspondido.

Be careful with the world, step lightly so as not to bruise the gravel, bury the ants and dissipate the dust from its eternal game of pretending to be a surface. Know that everything is fragile. Sometimes silence is the deepest form of reciprocated love.

Texto | Text: Lorena Kim Richter
Fotografia | Photography: Marcelo Celeste

# 4622



Os olhos pesavam-lhe, marejados daquele terrível desconforto inerente ao simples facto de estarem abertos.

His eyes were heavy, tinged with that terrible discomfort inherent in the simple fact that they were open.

Texto | Text: Sofia Melo Esteves
Fotografia | Photography: Vilma Serrano

# 4621



Na cadeira
Aos pés da cama
Despe
O corpo
O coração

On the chair
At the foot of the bed
Undresses
The body
The heart

Texto | Text: Maria Moreno
Fotografia | Photography: Agnes Burger

# 4620



Tudo começou quando disseram que as viagens eram metáforas.

It all started when it was said that journeys were metaphors.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Sefyaoui Youness

# 4619



Tento jogar às escondidas com o tempo mas ele encontra-me sempre.

I try to play hide and seek with time but it always finds me.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Laetitia Graber

# 4618



Presente, sem estares.
Observo o mundo e falo-te.
Que dizes?

Respiro consciente e escuso-me
da fantasia, até oito minutos passados.

Hera, se o teu nariz romano fosse grego,
por quem me tomarias?


Present, without you being.
I observe the world and speak to you.
What do you say?

I breathe consciously and excuse myself
from the fantasy, up to after eight minutes later.

Hera, if your Roman nose was Greek,
who would you take me for?

Texto | Text: José Manuel
Fotografia | Photography: Nadir Social Lens

# 4617



Tudo começou quando disseram que as viagens eram metáforas.

It all started when it was said that journeys were metaphors.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Maria Moreno

# 4616



As mãos. O espaço vazio entre os dedos. Há quanto tempo estaria assim, por preencher?

The hands. The empty space between the fingers. How long had it been like this, unfulfilled?

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Vanda Cristina

# 4615



Eu gosto é de palavras
Com pernas bonitas
Que chegam certas
De que nos batem
Que acariciam
Por baixo da mesa

Palavras-pernas
Que nos pontapeiam
Até ao infinito precipício
De um verso
E depois nos prendem
Entre si e o adeus


What I like is words
With beautiful legs
That arrive assured
To beat us
Under the table

Leg-words
That kick us
To the infinite precipice
Of a verse
And then arrests us
Between them and goodbye

Texto | Text: Maria Moreno
Fotografia | Photography: Carla Sofia Sousa

# 4614



Diz-me que há beleza no que não conheço.

Tell me there's beauty in what I don't know.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Clarice Stanger

# 4613



Será de amor a estória que se conta em gestos perdidos na iminência do seu existir?

Is love the story that is told in gestures lost in the immediacy of its existence?

Texto | Text: Catarina Vale
Fotografia | Photography: Pascaline Godard

# 4612



O vulto das folhas
Sussurra pelo quarto dentro,
Até às mãos ansiosas,
Como o vendaval é um caos.
Um caos absurdo,
Que se ouve
Sempre areento,
Com desígnios e destinos
No máximo abstratos.

As mãos ansiosas...
De alcançar e nunca agarrar.


The shape of the leaves
Whispers through the room,
Into anxious hands,
Like the windstorm is chaos.
An absurd chaos,
That you hear
Always sandy,
With purposes and destinies
Abstract at best.

Hands eager...
To reach out and never grasp.

Texto | Text: Rúben Marques
Fotografia | Photography: Paula Abreu Silva

# 4611



Na volúpia da tua pele encontra-se uma janela para o passado.

In the voluptuousness of your skin lies a window to the past.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Noah Jordan

# 4610



O tempo desliza devagar pelo corpo.
Agarra-se à pele.
Quer ficar.

Time slips slowly through the body.
It holds on to the skin.
It wants to stay.

Texto | Text: Paulo Kellerman
Fotografia | Photography: Michèle Polak

# 4609



Eu era a mesma e ninguém tinha levado a minha alma.

I was the same and no one had taken my soul

Texto | Text: Sofia Melo Esteves
Fotografia Photography: Luana Lessa

# 4608



Entre o que fui, o que tenho e o que não quero, está a minha essência na metamorfose dos dias.

Between what I was, what I have and what I don't want, there is the essence of me in the metamorphosis of days.

Texto | Text: Cristina Vicente
Fotografia | Photography: Dimitris Metaxas

# 4607



alma
sem
tecto
deseja
corpo
alado

soul
without
roof
desires
winged
body

Texto | Text: Mafalda Carmona
Fotografia | Photography: Catherine Sclear