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# 2969




Estava sempre muito ocupada a fugir de si própria. Um dia parou, observou-se, e não se reconheceu. A sensação de vazio tinha tomado conta dela.

Texto: Patrícia Grilo
Foto: Cristina Mamede

# 2571




De Física pouco mais sei para além de que me apaixona. Tenho também esta ideia de que tudo é energia. As casas, as árvores, os corpos dos animais, os pensamentos, vêm do mesmo sítio, existem pela mesma razão fundamental, estão indelével e inexoravelmente ligados. Ontem procurava compreender, pela enésima vez, porque é que, à simples ideia de ti, o meu ser se transforma. Lembrei-me de que, se tudo é energia, a ideia de ti faz materialmente parte de mim. Sente-se, a parte do meu corpo que te pertence.

Texto e foto: Cristina Mamede

# 2484



não era como se ardesse. era tão belo quão belo pode ser o mais delicado artifício. os sentidos explodiram nos breves instantes do fascínio que antecede a compreensão. depois veio o nome e com ele a certeza de que era fogo e o céu fez-se terra no desejo de saber. e do fim da terra ecoou: “no princípio era o Verbo”.

Texto: Cristina Mamede
Foto: Maria João Faísca

# 2458

 

Queria todos os pontos cardeais e essa familiar doçura do tempo mais belo do ano. Chegara o dia 1 e até a hora dourada, mas a temperatura e a brisa teimavam em não tocar a pele e a cor em não trespassar os olhos.
Baixou os olhos, fixou o perímetro dos pés, colou o corpo ao chão e largou.

Texto: Cristina Mamede
Foto: Tânia João

# 2297



"Entendo agora que toda a dualidade traz em si a vertigem. Da rigidez da forma que se precipita no infinito; da dureza da matéria que se esvai nos poros; da consistência da cor que faz lembrar o tom dos cabelos e leva os dedos a procurá-los em mechas para acariciar, pela incontável vez, as espirais de uma pulsão. Entendo agora porque é que este gesto se demora sempre tanto, quer ficar para sempre. A pulsão é o lugar de ficar, o lugar dos limbos sustentáveis, dos vãos das escadas também. Entendo agora porque é que tenho vertigens desde criança e porque é que elas mudaram quando chegaste."

Texto: Cristina Mamede
Foto: Selma Preciosa

# 2285



"Busco nos órgãos, nos membros, nas pontas dos dedos o formigar das pulsões vitais de um tempo primordial. E logo é agora nas mãos e nos olhos da mente que o amarelo revelado (apesar da onda longa) e o azul velado (apesar da onda curta) voltam a fundir-se. Ontem a luz dos teus olhos disse-me que o verde é a cor do coração. Hoje vejo-o sob todas as formas. Sei por isso que está dentro delas, no coração. O meu sorriso é largo, longo e irremediável."

Texto: Cristina Mamede
Foto: Teresa Marques dos Santos

# 2267


"duplicas-te e alargas o horizonte, espraias-te na volúpia de espinhos e plumas, encenas-te numa dança de algodão, mas o meu olhar afunda-se na longitude do teu corpo maciço e firme de desejo de se fundir na metade invisível do céu."

Texto: Cristina Mamede
Foto: Cristina Vicente 

# 2235



"tens o antes e o depois baralhados e contidos no sopro do tempo que te despe das marcas, sinais, fronteiras… e sussurras num sibilar intacto: a eternidade é sempre jovem"

Texto: Cristina Mamede
Foto: Tânia João