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# 2011



"O lugar do estás de castigo, do vai pensar no que fizeste, deixara de o ser quando retirou os ponteiros que marcavam, em tom monocórdico, o tempo naquele espaço em que estaria sozinho. A pensar, apenas. E era bom. Tão bom."

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1973



"Tenho de arranjar um par de olhos que não sejam os meus, para poder olhar para mim."

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1963



"Chegou o momento de nos despirmos da poeira, do bafio e do bolor que se incrustou no tempo. Chegou o momento de despir a casa que albergou tudo aquilo que invadiu cada fresta de madeira, cada espaço da trama dos tecidos e matar os ácaros do nosso colchão. Dar-lhe uma nova vida e perguntarmo-nos... Mas por que raio é que temos tantas almofadas?"

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1951



"O telefone tocou, o fixo, naquele tempo, não havia dos não-fixos. Deitada na carpete da sala a ver o aparelho das imagens em movimento com som mesclado pelo toque do aparelho, fez-me descer as escadas num ápice. Uma mancha negra, grande e peluda subia-me pelo regaço. Gritei e sacudi. Numa outra ocasião, o grito (não o de Munch) refletiu-se na banheira.
Anos mais tarde, conheci a Louise e, a Louise tinha uma outra visão para com a aranha que, para além de protetora de insectos, era a representação da mãe, ela também protetora e tecedeira. Cada uma a tecer a teia à sua maneira, cada uma a proteger ao seu jeito. Desde então, deixei de gritar e a incapacidade de destruir teias tão subtis e habilmente construídas tomaram o seu lugar."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Artur Gomes

# 1948

 


"Ouvi alguém dizer que a arquitetura termina quando ela passa a ser habitada pelo corpo. 
Uma arquitetura pensada no espaço vazio criado pela matéria, deixa de o ser, quando o corpo invade esse lugar. 
E quando o corpo desaparece dando lugar a esse vazio envelhecido, será que a arquitetura renasce? Pensei. Hum... 
Não me parece... a presença do corpo é memória nesse lugar antes-arquitetura." 

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1930



"O garfo atirou-se ao olho... assim, sem querer.
Bastou rodar um pouco e puxar.
O jantar estava mesmo bom."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1906



"Aspira que eu vou inspirando para não perder os sentidos."

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1896



"Disseram-me, certo dia, de que a Terra era redonda. Quem me o disse ao ouvido, falou alto demais. Outros, desconfiados pelo medo, fizeram com que desaparecesse.
Desde então, passei a olhar para o meu reflexo em espelhos circulares, na esperança de me poder ver por inteiro."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1858







"Quis-me dizer algo nesse dia. Quando me chamou. Tudo parou à minha volta. Vagueei pela rua sem ninguém, vazia. Uma rua deserta que tinha como único destino a sua casa. Acho que não vi ninguém. Pelo que penso que também ninguém me viu. 
Ao chegar, confrontei-me com um espaço perdido no tempo que já tinha passado. Mas era bem presente comigo. Eu queria. Não ouvi nada nem ninguém, então entrei. Lá dentro cheirava a paraíso. O melhor cheiro que senti, por isso, de paraíso. 
Brancas, as paredes. Nuas, despidas de qualquer simbolismo decorativo. Pensei encontrar-me a mim e a ela, na parede. Mas não. 
A subtileza reinava no interior frio e vazio. Só o cheiro era inebriante. O sol tinha começado a sua descida com uma luz que me vazava o olhar. Estava à espera de a encontrar. Não a conseguia ver. 
Na sala chispavam fagulhas de uma lareira quase apagada. Era estranho. Toda a casa estava vazia. Fria. Da porta das traseiras pude reparar num pequeno pátio de calçada repleto de folhas outonais. Ali estava um pequeno baloiço, ferrugento. Bem lá no fundo. Era ali que ela estava. Sentada, à minha espera. Não me disse nada. Mas sabia que eu ali estava. Sem saber como, ali tinha chegado. Aproximei-me. Toquei-lhe. 
Finalmente tinha-a comigo depois de algum tempo sem a ver. Trocámos olhares clandestinos antes de nos beijarmos. O desejo apoderou-se dos dois e a luz tímida do crepúsculo vespertino iluminou-nos as faces ruborizadas pelo prazer. Ali fizemos amor. Aquilo que mais gostávamos de fazer juntos. Dois corpos tolhidos pela vontade de se quererem mostrar sem terem mais nada em troca, senão puro prazer. Prazer. Depois saí. As palavras não chegavam para deixar os sentidos falar. Puro prazer. E continuou sem me dizer o que queria. 
- Não fales. Eu sei o que tu queres dizer." 

Texto: Emanuel Jacinto 
Fotos: Sandrine Cordeiro

# 1848



"A sala escurecida, iluminada apenas pelo grande ecrã e pelas luzes de saída de emergência, emanava sons em alta fidelidade para as envolver numa viagem interestelar. Viajaram, cada uma ao seu jeito. Nestas coisas, cada um é livre de viajar como bem entender.
Já a narrativa ia avançada quando lhe sussurrou "o amor é o que move esta merda toda", intrometendo-se na viagem da outra, longe de imaginar que daqueles olhos seria acionado o mecanismo dos seus vasos lacrimais. Anos-luz passaram-se, no entanto, é nesta junção de palavras de quem as converteu em sussurro e que continua a assaltar-lhe o pensamento, de quando em vez, que mantém a sua convicção... Uma frase simples, uma frase de merda. Uma frase de... fé?"

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1838



"Dizem-te que na luz é que se deve estar. E tu estás. Ou vais estando, a mando de quem o diz. Reparas que o pedacinho que te circunda é tão pequeno, é quente, sim, algo confortável, até, mas tão sem sal e, olhas para o abismo que te circunda... É tão grande e sedutor. Tão sedutor, repara. E se desses um passo para lhe tocar, hã? Vá, anda... É só um passo."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1830



"... e no entanto vieste e não disseste nada. Nesse momento percebi que já não eras minha, ficaste entregue àqueles dias em que o sol entrava no nosso quarto e nos iluminava a alma. Quando me lembrei de te procurar, foi tarde demais. Não te encontrei. Talvez porque tu não quisesses, não sei. Só sei que não te encontrei. A angústia tomou conta do meu querer, da minha procura, da minha felicidade. Poder não te encontrar era a tragédia. Ainda ando à procura, talvez por não saber nada de ti. Do sonho. À espera, até, de ser despertado. Do sono. De repente, fiquei gelado. 
- Não fales. Eu sei o que tu queres dizer."

Texto: Emanuel Jacinto
Foto: Sandrine Cordeiro

# 1812



"Pediste-me para esticar a mão. Entreguei-ta aberta. O teu olhar acompanhou o teu dedo que deslizava sobre as suas linhas vincadas. Dizias que esses pequenos caminhos percorridos na palma da minha mão revelariam tudo acerca da minha vida. 
Não reparaste em nenhum momento para o meu olhar, o meu corpo, as linhas invisíveis que atravessam o meu ser e se propagam para além do meu todo. Sou feita disso tudo e nem reparaste. Podes saber da minha vida, mas não sabes nada de mim."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1790



"O chão que piso range, as tábuas envelhecidas emanam o mesmo ruído que relembro da minha infância. O chão que me tornou naquilo que sou hoje deixou de existir, apesar do sinal sonoro que os meus ouvidos auscultam a cada passo. Estou sem chão. 
Restam-me as memórias das quais receio o desaparecimento dado o meu tempo já avançado. Dizem que depois de se ser mãe, a memória tende a perder-se aos poucos. Um disparate. Se assim fosse, a memória dos homens permaneceria intacta. 
Acredito no apodrecimento do nosso corpo no qual nos vamos perdendo de nós próprios. Um fenómeno biológico inverso semelhante ao nascimento. Não tenho memória de ter nascido, assim como receio desaparecer sem memórias da minha jornada por estas bandas. 
Não tenho medo de partir, sei que é a única certeza. Incomoda-me mais a dor que possa provocar naqueles que ficarem quando partir (se é que darão pela minha falta). 
Pesa-me porque me está a doer ter perdido o meu chão, ao qual não fui capaz de manifestar afeto, apesar de o sentir. Por ter sido dura e rude, a minha forma de amar. 
Faltou o abraço, essa incapacidade de juntar dois corpos e sentir-lhes os corações a bater em simultâneo sem saber de qual se tratava. E agora um desses corações deixou de bater e o meu parece ter abrandado o ritmo como se não merecesse esse batimento que me permite pisar o chão que perdi."

Texto e foto: Sandrine Cordeiro

# 1781



"Como peixe dentro de água, é assim que me sinto enterrada. Dentro de terra, mas não morta. Por vezes venho ao de cima espreitar o que se passa à superfície e, apesar do verde das plantas serem o que avisto assim que retiro cada grão dos meus olhos, sei que para além deste milagre há algo de mais tenebroso à minha espera. Por vezes vou, mas volto assim que possa, as minhas raízes apelam a que o meu corpo regresse para o meu lugar de pertença e enterro o meu ser, uma vez mais."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1767



"Dizem-te para subir ao topo da montanha o mais rapidamente possível. Dizem-te que quando alcançares o cume, terás conseguido tudo!
E depois de tudo? O vazio.
Segues lento, na direção oposta porque acreditas que é na raiz que encontras a tua essência plena. 
Quem sobe rápido e sem olhar a meios para alcançar o cume, atropela-se a si e aos outros. 
Lá ao fundo, regressas só, sem atropelos, sem pressas para te encontrares. Haverá algo de mais belo para almejar?
Segue lento e quando chegares, avisa." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1747



"Há quanto tempo estamos em obras?
Quais obras?
Estas... o chão coberto de plástico, as paredes esbranquiçadas, as escadas que não me permitem sequer entrar ou sair de casa de tão atoladas que estão.
Está aí esse escadote.
Pois está, por onde é que achas que eu vou, finalmente, sair de casa? Só tenho esta janela para me escapar e, nunca lhe percebi a utilidade, mulher, nunca. Quem abre uma janela numa casa a uma altura inacessível ao vislumbre da paisagem que a rodeia? Quem?
Eu.
Porquê?
Pelo mesmo motivo das obras e do aparecimento repentino desse escadote que sobes, inseguro com a possibilidade da queda.
Isto treme por todo o lado. 
Também eu tremia quando ouvia o rodar da tua chave na porta de entrada.
O barulho da minha chave faz-te tremer e tu inicias obras que nos mantêm presos dentro de uma casa sem vista para o exterior. És louca?
Já não. Estás a subir e sei que vais descer para o outro lado. Nessa altura, as obras terão terminado e eu deixarei de tremer." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João