"- Já te disse, hoje, as saudades que tenho da tua voz? Da sua vibração no meu tímpano? Já te disse? O caminho que esse teu, tão teu, timbre percorreu e sobressaltou? Creio que sabes... não preciso de o dizer, então."
"Correu os dedos pelo cabelo. Foi um impulso aquele corte. Nos primeiros minutos pareceu-lhe o máximo. Agora reencostada na cadeira velha do jardim, observava os brinquedos desmantelados, por ali espalhados como carcaças sem cor, sem vida a habitarem uma relva crescida já murcha. Podia ter tirado tudo aquilo dali. Mas teve medo. Podia perder o sentido da vida. Sempre contavam histórias aquelas carcaças. Ela lembrava-se de todas. Ainda. Sorriu. Suspirou. Os olhos ficaram húmidos, passou as mãos pelo cabelo, cinco ou dez vezes. Não se sentia ela própria. Talvez isso fosse bom. Sentiu frio. Aborreceu-se, não pelo corte, nem pelos brinquedos, só pelo tempo. Tempo perdido." Texto: Andreia Monteiro Foto: Rui Mãos de Cenoura
“Não…” Com estas três letras arrasaste os meus sonhos, abanaste todo o meu chão até que eu caísse, apagaste o meu horizonte. Mas eu vou erguer-me, devagar, e procurar por outras três letras, as únicas capazes de me devolver a vida, as únicas que me farão voltar a acreditar. “Sim...”
"Não nasci no mundo. Foi o mundo que nasceu em mim e eu no mundo que em mim nascia. Fora de mim, o nada. Fora de mim, a irrelevância de ser ou não ser. Fora de mim, o que nunca poderei saber."
Texto: Elsa Margarida Rodrigues Foto: Rui Mãos de Cenoura
"A subtil sensação de que a nossa arquitetura andava sem sentido de humor. Mais funcionária que funcional. Palidamente cinzenta. Desmotivando pausadamente os nossos espaços urbanos." Texto: José Alberto Vasco Foto: Rui Mãos de Cenoura
"Estou certa de poder emergir com ideias de revolução e liberdades urgentes. Livre. Enfim, livre. Afinal, completa." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Rui Mãos de Cenoura
"A esplanada vazia de gente de tudo menos de nós. Tu os teus cabelos dourados os teus olhos azuis e o teu corpo vestido de preto e amarelo. O teu corpo enchia a esplanada vazia de gente. O teu corpo enchia-me o olhar. As tuas pernas nuas cruzadas debaixo da mesa na esplanada enchiam o espaço que nos separava. E como o espaço ainda nos separava. Os nossos olhos cruzaram, os teus no infinito os meus nos teus. As vidas cruzam-se assim como os olhos se cruzam num olhar, como um simples cruzar de pernas, as tuas, no momento de um olhar meu, furtivo aos teus olhos. Fizemo-nos acreditar naquele olhar e agora estás a meu lado, na esplanada vazia de gente mas cheia de nós."
Texto: Jorge Gomes Pereira Foto: Rui Mãos de Cenoura
"Pergunto-te: não seriamos mais felizes se assumíssemos as nossas contradições, as intermináveis provas de que a vida não é rectilínea, de que de nada vale ter planos e delinear projectos, porque tudo o que podemos fazer, tudo o que nos é concedido, é ir improvisando?"
"O que eu queria era não desesperar com o tempo que ainda me resta hoje, com o amanhã, o depois de amanhã. O que fazer com todo este tempo se só tu sabias como o preencher de cor, de emoção, de amor?"
"Faria pouca diferença limpar as marcas da tua passagem no meu corpo a cada colisão. Os relacionamentos amorosos, casos de vida maior, morrem como tudo o que pulsa."
Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Rui Mãos de Cenoura