"Quis-me dizer algo nesse dia. Quando me chamou. Tudo parou à minha volta. Vagueei pela rua sem ninguém, vazia. Uma rua deserta que tinha como único destino a sua casa. Acho que não vi ninguém. Pelo que penso que também ninguém me viu.
Ao chegar, confrontei-me com um espaço perdido no tempo que já tinha passado. Mas era bem presente comigo. Eu queria. Não ouvi nada nem ninguém, então entrei. Lá dentro cheirava a paraíso. O melhor cheiro que senti, por isso, de paraíso.
Brancas, as paredes. Nuas, despidas de qualquer simbolismo decorativo. Pensei encontrar-me a mim e a ela, na parede. Mas não.
A subtileza reinava no interior frio e vazio. Só o cheiro era inebriante. O sol tinha começado a sua descida com uma luz que me vazava o olhar. Estava à espera de a encontrar. Não a conseguia ver.
Na sala chispavam fagulhas de uma lareira quase apagada. Era estranho. Toda a casa estava vazia. Fria. Da porta das traseiras pude reparar num pequeno pátio de calçada repleto de folhas outonais. Ali estava um pequeno baloiço, ferrugento. Bem lá no fundo. Era ali que ela estava. Sentada, à minha espera. Não me disse nada. Mas sabia que eu ali estava. Sem saber como, ali tinha chegado. Aproximei-me. Toquei-lhe.
Finalmente tinha-a comigo depois de algum tempo sem a ver. Trocámos olhares clandestinos antes de nos beijarmos. O desejo apoderou-se dos dois e a luz tímida do crepúsculo vespertino iluminou-nos as faces ruborizadas pelo prazer. Ali fizemos amor. Aquilo que mais gostávamos de fazer juntos. Dois corpos tolhidos pela vontade de se quererem mostrar sem terem mais nada em troca, senão puro prazer. Prazer. Depois saí. As palavras não chegavam para deixar os sentidos falar. Puro prazer. E continuou sem me dizer o que queria.
- Não fales. Eu sei o que tu queres dizer."
Texto: Emanuel Jacinto
Fotos: Sandrine Cordeiro





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