"Querido Ausente,
Para chegar ao teatro, faço sempre a rua de São Paulo. O mesmo são Paulo que cegou por ter visto Cristo. Cegou para depois voltar a ver. Quantas vezes terás que te enganar até acertar? Quantas vezes terás de desacreditar até estares preparada para a confirmação? Por quantas mágoas terás que passar até que a dor não passe de mero conceito? Quantos desamores até veres o amor? Crer para ver ou ver para crer? "Senhor, que queres que faça?", gritou São Paulo. Como recomeçar?, grita a geometria europeia. A minha bisavó Ana tinha uma figueira no quintal de sua casa. Ali passei parte da minha infância. Ela ficava sentada no banco que estava debaixo da figueira, a ver-me brincar. Não me lembro a que brincava eu. Brincava quase sempre sozinha, mas as crianças não precisam de mais crianças para poderem brincar. Brincam a qualquer coisa, e do nada criam casinhas e histórias. E criam porque desconhecem o valor da Coisa. E a Coisa afinal que valor tem? Talvez goste tanto de figos porque me lembram o tempo em que a Coisa não existia. Era ausência. Longe da eloquência persuasiva da sabedoria, os figos são Cordeiro e Leão ao mesmo tempo. Perto das figueiras, não há mísseis, atentados, ou enganos. Há meninas de quinze anos com rapazes de dezassete a beijá-las. Os figos são a memória da inocência do mundo, são a terra prometida.
Beijos da tua rapariga simples"
Texto: Susana Sá
Foto: Cristina Vicente

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