# 5755



Raias-Borboletas

Numa noite de Verão
Na sombra de um convés-telheiro
Navio negreiro encalhado
Mesas postas e toalhas aos quadrados
Em Lagos
O zumbido de corpos nas pedras da calçada
Bronzeados e coloridos
Que se passeiam em bandos
Como autómatos
Estridentes
Numa alfandega humana
Onde uns são livres, outros são cativos
Onde uns vêem luz, outros vêem sombras
Ao seu redor circulam filas de raias-borboletas
Escravas
Transportadas em caravelas-portuguesas
Andorinhões-pretos acorrentados
Na rua da Vedoria
Cantam estranhas canções
Sinos-tambores pendurados na língua
Quartetos vissungos desembarcados
Como lamentos.


Butterfly Rays

On a summer’s night
In the shade of a covered deck
A stranded slave ship
Tables laid and tablecloths in squares
In Lagos
The hum of bodies on the cobblestones
Tanned and colourful
Strolling in flocks
Like automatons
Strident
In a human customs house
Where some are free, others are captives
Where some see light, others see shadows
All around them circle rows of butterfly-rays
Slaves
Transported in Portuguese caravels
Chained black swifts
On Rua da Vedoria
They sing strange songs
Bell-drums hanging from their tongues
Vissungo quartets disembarked
Like laments.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Joana Neves

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