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# 1899



“Tenho tatuagens invisíveis na pele, melanomas que escapam aos microscópios. Aos olhos nus são visíveis.”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Paula Melo

# 1076

 


“dia ao contrário

hoje o fundo é branco, não há pontos nem linhas, nem partes para destacar. hoje inundei-me de luz. inteira.”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Carla de Sousa

# 917



“bem-vindo
puxe
feche os olhos. veja. abra os olhos.
empurre
volte sempre
obrigado”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Rita Fernandes

# 851



"eu sei
labirintos
corredores
cicatrizes
de voos felizes"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Mónica Brandão

# 824



"bem-vindo
puxe
feche os olhos. veja. abra os olhos
empurre
volte sempre
obrigado"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Ana Gilbert

# 823



“espera
tenho uma esfera dentro, um planeta sem água potável, cuja função é restabelecer o equilíbrio, servir de lastro, purificar o gesto.”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Inês Sarzedas

# 805



“escrevi-te uma mensagem. a letra era feia, fui amachucando as folhas. escrevi em maiúsculas. talvez um exército alinhado captasse a tua atenção. fiz-te um desenho.”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Sílvia Bernardino

# 771



"as frases que escreveste em espelho
para que fossem o embaciar da tua respiração
e o seu contrário"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Tânia João

# 751



“moonwalk
gosto das escadas que me levam os passos, do chão automático que me impede de voltar atrás. debaixo dos pés, motores e engrenagens são como um céu que alimenta o caminho.”

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Elisabete Antunes

# 741



"certas coisas estão certas assim e estão certas assado. depende de onde se vê e para onde se vai."

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Ana Moderno

# 731



"e,
num minuto de estática, perdi o equilíbrio."

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Sílvia Bernardino

# 730



"tenho o molde das coisas guardado nas minhas mão nuas
em calos colinas silêncio e golpes de asa"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Teresa Maria dos Santos

# 673



"ao longe
crispações microscópicas
minúsculos incêndios de silêncio
ínfimos cortes com a ponta da tesoura
arqueiros certeiros que apontam aos poros"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Rui Mãos de Cenoura

# 636





"Travessia
Prendeu a ponta do arame no para peito, a outra ponta presa ao ramo mais corajoso. Lá em baixo todos aplaudiriam, embora ainda não soubessem o que se preparava para acontecer sobre as suas cabeças, nem soubessem tão pouco que o corpo é capaz de tais prodígios, como olhar para cima. Fez uns breves exercícios de aquecimento, ensaiou os passos e o retomar do equilíbrio com uma rápida flexão dos joelhos. Hesitou em relação à lista de nove páginas que teria de levar consigo: quatro numa mão e cinco noutra? Ou ao contrário? Decidiu levar as nove páginas na mão esquerda, da qual mais facilmente se esquecia. A outra ficaria livre para comandar mecanicamente o gesto. Respirou fundo, acariciando com essa respiração a camada espessa de contentamento que lhe forrava o desígnio. Dali a nada estava a meio do arame, os pés em breve acento circunflexo. Se tremia não se via. Não se via. Muito ao longe um dirigível vermelho cortava o lençol de vento que decidira, à falta de melhor dispositivo de segurança, suspender a trajectória para acolher aquele intrépido trapezista sem rede. Coisa nunca vista. Os cinco últimos passos foram breves como colcheias, o restolhar das folhas confundindo-se com o restolhar da lista, o rombo dos aplausos anunciando-se na batida cardíaca. Chegado ao ramo desprendeu o arame que de novo se colou à fachada do prédio. Ali ficou muitos anos, misturado com os cabos eléctricos e os fios telefónicos, guardiões de outros impulsos."

Texto: Sónia Oliveira
Fotos: Carla de Sousa

# 504



"espreito pelo postigo, a porta postiça que abri no coração com um sopro.
a mesa há muito que está posta, mas faltas tu. atrasei o relógio com as minhas arritmias. o coração não arrefece."

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Sonja Valentina

# 483



"fé
nos espíritos de metal oxidado
nos olhos bem fixos e vedados
que não transbordam com o mundo"

Texto: Sónia Oliveira
Foto: Rui Mãos de Cenoura