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# 5605



Larvas

Quanto vale uma vida?
Dos que não chegaram a vingar no útero de suas mães
Dos que morreram sem chegar a viver
Dos que ficaram estropiados em praias como peixes-voadores
Por armas de guerra escondidas em dunas
Dos que morreram afogados num mar gelado
Por tentarem nadar um sonho de liberdade
Salgado e amargo
Quanto vale uma vida?
Que letras soletrar no código genético?
Que palavras conjugar?
Que gramática utilizar para os deficientes, os esquecidos, os estigmatizados?
Dos que são apenas um erro na tabela
Uma mensagem mal codificada
Uma sequência de aminoácidos malformada na proteína
Quanto vale uma vida?
A todos vós seres bem traduzidos na cadeia polipeptídica da língua da perfeição
Acabada e aborrecida
A todos nós criaturas mal sonhadas pelo encadeamento de nucleotídeos na cabeça de alguém
Tristes e enfezadas
Que no fim somos todos cinza e pó
Numa campa numerada.


Larvae

How much is a life worth?
Of those who never made it in their mothers' wombs
Of those who died without ever living
Of those who were maimed on beaches like flying fish
By weapons of war hidden in the dunes
Of those who drowned in an icy sea
For trying to swim a dream of freedom
Salty and bitter
How much is a life worth?
What letters to spell in the genetic code?
What words to conjugate?
What grammar to use for the disabled, the forgotten, the stigmatized?
Of those who are just a mistake in the table
A poorly encoded message
A malformed amino acid sequence in the protein
How much is a life worth?
To all of you beings well translated in the polypeptide chain of the language of perfection
Finished and boring
To all of us creatures badly dreamed by the chain of nucleotides in someone's head
Sad and sulky
That in the end we are all ash and dust
In a numbered grave.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana França

# 5550



profundo

na celebração do único
desenho-te a cartas de amor
unidas por algo belo
que sorvo em mesclas de contrastes
do sentir-te casa


profound

in celebration of the one and only
I draw you love letters
united by something beautiful
that I sip in blends of contrasts
of feeling you home

Texto | Text: Isabel Pires
Fotografia | Photography: Ana França

# 5492



Não somos pausas, diz-me o vento que continua a soprar da mesma forma. Somos semanas seguidas, sente o corpo.

We are not pauses, the wind tells me, blowing steadily as ever. We are weeks on end, the body feels.

Texto | Text: Cristiana Ribeiro
Fotografia | Photography: Ana França

# 5462



carmesim

há um encanto especial nos dias curtos do verão tardio.
o sol, em promessa de brevidade, beija-nos a pele com vontade de ficar.
o mar, em rolos de espuma que se desfazem à beirinha, traz mais arrepios mas que sentimos menos porque somos melhores com sabor a sal.
os caminhos de ocre ampliam-se em candura melancólica e o silêncio vive mais a cidade
enquanto os corpos procuram noite e tocam a felicidade.


crimson

there is a special charm in the short days of late summer.
the sun, promising brevity, kisses our skin with a desire to stay.
the sea, in waves of foam that break at the shore, brings more chills, but we feel them less because we are better with the taste of salt.
The ochre paths widen in melancholic candor and silence lives more in the city
while bodies seek night and touch happiness.

Texto | Text: Isabel Pires
Fotografia | Photography: Ana França

# 5301



Uma dança entre estrelas,
que explodem por viver

A dance among stars,
that explode for living

Texto | Text: Cristiana Ribeiro
Fotografia | Photography: Ana França

# 5231



sinto morrer-me à janela
a luz branda estende-se sobre o vale

a minha morte dispersa
nas palavras e gestos das pessoas vãs


I feel myself dying at the window
the soft light stretches over the valley

my death scattered
in the words and movements of vain people

Texto | Text: José Manuel
Fotografia | Photography: Ana França

# 5136



Sinto que invado as tuas memórias com o meu cheiro.
E gosto.
Sinto o teu toque quando desenhas na tua memória os meus tornozelos.
E gosto.
Sinto um tremor quando descreves minuciosamente o contorno dos meus mamilos.
E gosto.
Quero acabar com as tuas memórias.
Quero fazer nascer as nossas.

I feel like I'm invading your memories with my scent.
And I like it.
I feel your touch when you draw my ankles in your memory.
And I like it.
I feel a tremor when you minutely describe the outline of my nipples.
And I like it.
I want to end your memories.
I want to give birth to ours.

Texto | Text: Renata Barbosa
Fotografia | Photography: Ana França

# 5059



Tenho corações nas pontas dos dedos. Todos eles batem: por mais de mim.

I have hearts on my fingertips. They all beat: for more of me.

Texto | Text: Cristiana Ribeiro
Fotografia | Photography: Ana França

# 4995



AMANHÃ
Aconteça o que acontecer
vais continuar a ser.
Tu.

TOMORROW
Whatever happens
you will continue to be.
You.

Texto | Text: Maria Ervilha
Fotografia | Photography: Ana França

# 4961



De sombras e sóis são feitos os dias. E nós.

From shadows and suns, days are made. And we.

Texto | Text: Viviane Lucas
Fotografia | Photography: Ana França

# 4880



Exaustos de nós mesmos,
Quiçá, um do outro
Nunca fomos tão pouco
Nem tanto ao mesmo tempo
Desfeitos
No tempo contrafeito
Lutando contra os efeitos
De um amor
Desarmado
Desamado.

Caiu me o corpo
E meio vazia
Vagueio tempestade
Entre os cacos
De um copo
Meio cheio
De nada
De nós
Exaustos
De nós mesmos
E das vontades a medos
E dos contornos vazios
E das saudades do tronco
Suporte e casa que fomos
Quero te tanto
E tu
Tão pouco
Exaustos
Estamos
De nós mesmos
E quiçá
Um do outro


Exhausted of ourselves,
Perhaps of each other
We've never been so little
Or so much at the same time
Undone
In counterfeit time
Fighting the effects
Of a love
Disarmed
Unloved.

My body fell
And half empty
I wander in a storm
Among the shards
Of a glass
Half full
Of nothing
Of us
Exhausted
Of ourselves
And from desires to fears
And empty contours
And the longing for the trunk
Support and home that we were
I want you so much
And you
So little
Exhausted
We are
Of ourselves
And maybe
Of each other

Texto | Text: Simone de Carvalho Martins
Fotografia | Photography: Ana França

# 4824



De que país vêm os teus sonhos?

What country do your dreams come from?


Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Ana França

# 4749



Espelho

O reflexo da minha pele é um infinito sem fim
Que grita todo o medo que é estar dentro de mim.


Mirror

The reflection of my skin is an endless infinity
That screams all the fear of being inside me.

Texto | Text: Ricardo Fonseca
Fotografia | Photography: Ana França

# 4716



Sem argumentos válidos, o absurdo grita demasiado alto. Pouco barulho, se faz favor.

Without valid arguments, the absurd shouts too loudly. Keep it down, please.

Texto | Text: Sandra Francisco
Fotografia | Photography: Ana França

# 4582



Maria dos Anjos

Não me lembro de ti
Nem do teu rosto
Nem da tua voz ou de te ouvir rezar
Não me lembro das tuas mãos no meu cabelo
Nem do teu colo
Nem do som dos teus passos
Nem do teu cheiro
Não me lembro da cor dos teus olhos a olhar para os meus
Cheios de orações e de infinito
Cheios de cansaço
Não me lembro do teu terço pendurado no teu pescoço antes de ser meu
Não me lembro do teu nome nem do meu nome na tua boca
Nem de me chamares
Nem de me abençoares com palavras antigas ditas em latim
Benedicat tibi Dominus
Não me lembro de seres o meu anjo
Nem do arrastar das tuas asas
Nem de me velares o sono e me guardares dentro da tua alma
Sossegada
Não me lembro se fui um poema casto
Inacabado, intraduzível, dissonante
Ditado por Deus em aramaico e que recitaste por acaso na penumbra da tua cela
Como uma profecia que não se cumpriu
Não me lembro de ser contigo o que não nunca cheguei a ser
O que nunca consegui ser
Só me lembro da tua sombra
A caminhar
Do barulho das tuas vestes num corredor imenso a ecoar como um cântico.


Maria dos Anjos

I don't remember you
Or your face
Or your voice or hearing you pray
I don't remember your hands in my hair
Or your lap
Nor the sound of your footsteps
Or the smell of you
I don't remember the color of your eyes looking into mine
Full of prayers and infinity
Full of weariness
I don't remember your rosary hanging around your neck before it was mine
I don't remember your name or my name on your lips
Nor your calling me
Nor blessing me with ancient words spoken in Latin
Benedicat tibi Dominus
I don't remember you being my angel
Nor the flutter of your wings
Or watching over my sleep and keeping me in your soul
Quiet
I don't remember if I was a chaste poem
Unfinished, untranslatable, dissonant
Dictated by God in Aramaic and which you recited by chance in the penumbra of your cell
Like a prophecy that didn't come true
I don't remember being with you what I never got to be
What I never managed to be
I only remember your shadow
Walking
The rustle of your clothes in an immense corridor echoing like a song.

Texto | Text: Ana Paula Jardim
Fotografia | Photography: Ana França

# 4532



Enrolada nas ondas da praia não sabia o que queimava mais, se o sol, se o sal, e o céu cada vez mais se confundia com o mar.

Wrapped in the waves of the beach, I didn't know what burned more, the sun or the salt, and the sky became more and more confused with the sea.

Texto | Text: Sara Viscondessa
Fotografia | Photography: Ana França

# 4481



Há dores de crescimento que só a leveza de um corpo nu consegue suportar.

There are growing pains that only the lightness of a naked body can support.

Texto | Text: Márcia Oliveira
Fotografia | Photography: Ana França

# 4454



Em troca de um amor para sempre, jurou-lhe um poema por dia. Ilusão por ilusão.

In exchange for love forever, she swore to him a poem a day. Illusion for illusion.

Texto | Text: Ana Miguel Socorro
Fotografia | Photography: Ana França

# 4391



O meu pensamento é uma engrenagem gasta, que encrava em lugares onde a erosão não lhes tem compaixão. Oleada por ventos fortes e secos, a engrenagem dói. O corpo dói. A realidade dói e a vida arrasta a roda que não sabe como parar o desgaste.

My thoughts are like an old gear that gets stuck in places where erosion has no mercy. Oiled by strong and dry winds, the gear hurts. Our body hurts. Reality hurts and life drags the wheel that doesn't have the slightest idea how to stop the wear and tear.

Texto | Text: Andreia Mateus
Fotografia | Photography: Ana França

# 4246




Os olhos podem ver quando estão fechados, o coração pode ouvir o silêncio.

The eyes can see when they are closed.The heart can hear silence.

Oči mogu da vide kada su sklopljene.Srce može da čuje tišinu.

Texto | Text: Jelena Stankovic
Fotografia | Photography: Ana França