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# 4554
Nunca lhe disseram que se desligasse, o escuro morria. Essa ideia sempre lhe pareceu um absurdo de gramática, e por esse motivo decidiu nunca acreditar. Para acreditar é preciso ver o interruptor, dizia convictamente enquanto bebia o chá frio. Ninguém gosta de queimar a língua; reforçava a sua posição e, à sua volta, aceitavam a sua condição: apagar o escuro, ver a luz e cegar.
She was never told that if she turned it off, the dark would die. That idea always seemed like grammatical nonsense to her, which is why she decided never to believe it. In order to believe it, you have to see the switch, she said with conviction as she sipped her cold tea. Nobody likes to burn their tongue; she reinforced her position and, all around her, they accepted her condition: turn off the dark, see the light and go blind.
Texto | Text: Rita Rosa
Fotografia | Photography: Luciano Paz
# 4274
Mataste um gato, disseram-me quando o bolo alimentar do meio dia cumpria a gravidade do seu trajeto. Perdi a sombra e os músculos contrairam numa espécie de orgasmo de horror.
Mataste um gato, repetiram e acrescentaram pontas soltas: pormenores. As pernas desenharam na mente o plano de fuga, mas permaneceram estoicamente durante toda a sentença.
Mataste um gato, reforçaram, como se a primeira e a segunda vez não tivessem sido suficientes para fazer o corpo acreditar. O corpo, esse, sucumbiu à verdade. Derreteu pequenas células e encolheu.
Mataste um gato e ainda por cima era preto - acrescentaram a última gota num copo já sem fundo, onde a água já transbordava em forma de tsunami; e fugi.
Mataste um gato, recordei enquanto deambulava pelos corredores do Aldi. Lá, comprei ração para cães e um tapete de cozinha. Das duas cores possíveis, escolhi o preto.
Mataste um gato: um cruel desígnio da memória do qual jamais serei curada.
You killed a cat, I was told as the half-day food bolus met the gravity of its path. I lost my shadow and my muscles contracted in a kind of orgasm of horror.
You killed a cat, they repeated and added loose ends: details. The legs drew in the mind the escape plan, but remained stoic throughout the sentence.
You killed a cat, they reinforced, as if the first and second times had not been enough to make the body believe. The body, that one and only, succumbed to the truth. It melted little cells and shrank.
You killed a cat and it was black - they added the last drop in a glass already bottomless, where the water was already overflowing like a tsunami; and I ran away.
You killed a cat, I recalled as I wandered the aisles of Aldi. There, I bought dog food and a kitchen rug. Of the two possible colors, I chose black.
You killed a cat: a cruel design of memory from which I will never be cured.
Texto | Text: Rita Rosa
Fotografia | Photography: Cristina Vicente
# 3579
Não irei morrer sem saber quem eu sou. Penso e repito para dentro, para que todos os meus órgãos internos ressoem esta ideia e me obedeçam.
[I will not die without knowing who I am. I think and repeat to the inside, so that all my internal organs resound this idea and obey me.]
Texto | Text: Rita Rosa
Fotografia | Photo: Giorgos Kitsos
# 3511
Não irei morrer sem saber quem eu sou. Penso e repito para dentro, para que todos os meus órgãos internos ressoem esta ideia e me obedeçam.
[I will not die without knowing who I am. I think and repeat to the inside, so that all my internal organs resound this idea and obey me.]
Texto | Text: Rita Rosa
Fotografia | Photo: Luciano Paz
# 3461
E sabes que mais? Se perdesses o equilíbrio, a terra entornava os oceanos e diluía as montanhas e sujava a mesa.
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Cristina Vicente
# 3441
A repetição dá-te aquilo que já não controlas: a segurança de existires, não é?
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Francisco Válga
# 3330
Só serei feliz se souber que, mesmo nos medos, consigo escolher a luz e não a cinza.
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Francisco Válga
# 3327
Não deixarei que o medo me invada. Não deixarei que o medo me invada. Não deixarei que o medo me invada. Repeti até ficar com o céu da boca seco. Repeti até o estômago arder. Repeti.
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Mário Teixeira
# 3305
Agora é a tua vez de partir.
Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Carla de Sousa
Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.
Texto: Rita Rosa
Fotografia: Carla de Sousa
# 3023

Agora é a tua vez de partir.
Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.
Texto: Rita Rosa
Foto: António Carreira
# 2950

Não deixarei que o medo me invada. Não deixarei que o medo me invada. Não deixarei que o medo me invada. Repeti até ficar com o céu da boca seco. Repeti até o estômago arder. Repeti.
Texto: Rita Rosa
Foto: Carla de Sousa
# 2865
Agora é a tua vez de partir.
Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
# 2799
Saí de pés descalços, alado de saco ao peito. Contei as três balas cravadas no meu escalpe e lembrei o passado. Guardei no saco, a lanterna para os dias escuros e um batom vermelho
para as noites iluminadas. Nunca se sabe do que se precisa, quando procuramos a ausência na gravidade das horas.
Texto: Rita Rosa
Foto: Chico Vilaça
para as noites iluminadas. Nunca se sabe do que se precisa, quando procuramos a ausência na gravidade das horas.
Texto: Rita Rosa
Foto: Chico Vilaça
# 2778
Abeirou-se de mim e chorou. Era um homem. Olhou nos olhos, em silêncio, explodiu em catarse galáctica. Os carros pararam. Os semáforos enlouqueceram e as máquinas, essas, invadiram a mente humana e passaram a definir os nossos movimentos. Passámos a beber combustível e a defecar dióxido de carbono. O sorriso passou a um conjunto de luzes intermitentes, substituindo o vulgo lábio. Passámos a pesar menos. Emagrecemos as emoções e o ritmo. O ritmo também se emagrece. Passou a ser vestigial. Os ouvidos deram lugar a microfones que, de hora a hora, debitavam ordens de comando em busca do uníssono. O uníssono das máquinas. As mãos passaram a ser impressoras, imprimindo a cada cinco minutos o desempenho de cada um. O nariz rebelou-se e foi imediatamente fechado. O conceito de flor desapareceu. E o homem, esse, parou de chorar.
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
# 2775
Saí de pés descalços, alado de saco ao peito. Contei as três balas cravadas no meu escalpe e lembrei o passado. Guardei no saco, a lanterna para os dias escuros e um batom vermelho para as noites iluminadas. Nunca se sabe do que se precisa, quando procuramos a ausência na gravidade das horas.
Texto: Rita Rosa
Foto: Carla de Sousa
# 2768
- Sabes em quantos buracos cabe o meu coração?
- Não. Vais dizer-me?
- Em nenhum.
- Então, porque perguntaste?
- Queria perceber se tu achavas possível parti-lo para o dividir em buracos.
- E seu te desse um número possível?
- Serias um matemático.
- Deixarias de gostar de mim?
- Não.
Texto: Rita Rosa
Foto: Rah Pha
# 2722
Não irei morrer sem saber quem eu sou. Penso e repito para dentro, para que todos os meus órgãos internos ressoem esta ideia e me obedeçam.
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Leiria
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Leiria
# 2718
A temperatura da tua pele acolhe o meu arrepio. Pesquiso nos teus olhos onde pairam as tuas asas. Perdeste-as?
Texto: Rita Rosa
Foto: Sílvia Bernardino
# 2704
Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
Texto: Rita Rosa
Foto: Ana Gilbert
# 2692
Tenho feridas na pele junto das unhas. Culpa do frio e da ausência de cuidado. Dói quando escrevo. Dói ainda mais quando leio. Dói.
Texto: Rita Rosa
Foto: Pale Pink
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