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# 1878



"Nessas horas sempre esfria. Mas há as echarpes e um cobertor. Dois pares de joelhos se fazendo companhia. Um último olhar paira sobre a cidade. A montanha. Lá do alto vemos tudo. Sabemos de tudo. E nos fechamos em silêncio."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Fernando Silva

# 1566



"Não havia pedaço da velha varanda fora do lugar. O musgo bebia as manhãs. Em frente à grade férrea, a pedra segurava o vento. As portas esverdeavam. Atrás delas, Maria respirava.
Abaixo o degrau rochoso coberto pelo tempo, uma erva daninha tomava posse. Crescia, crescia como se tivesse nascido apenas para isso. Cada dia uma nova folha, um caminho a se abrir no meio da pedreira. Subia pela escada ao encontro de Maria.
Velha, de olhos vivos enxergava pouco. Abria-se para dentro. Só saía de manhã. Gostava de ouvir o sol. O vermelho sangue e o laranja chegavam quietos. Depois descascavam. O amarelo brilhante ofuscava de vez a noite. Mas era ruidoso e Maria voltava para a casa de portas verde oliva.
Por muito tempo, não gostou de pensar em origens. As suas eram as dos outros. Passou a viver ali, quando as crianças dos patrões nasceram. No dia em que fez 15 anos, o pai dos meninos foi embora.
Bordou a toalha de linho, que hoje amarela esquecida, enquanto a patroa tecia outro filho. Era sempre o marco. Delimitava terras alheias.
Talvez, havia amor nisso.
Agora, alguém nascia por ela. Primeiro debaixo da pedra. Respirava forte, a erva daninha. Rachou o topo da escada e pela varanda veio à luz. Crescia para Maria, somente para ela. Cada dia mais perto, a velha a percebeu quando foi ouvir o sol. A erva se aninhou no arco de seu pé. Ao toque da pele calejada, amaciou-se entre os dedos. Subiu as pernas. Tomou as suas cavidades. 
Maria não se movia. Já não era uma. Imaginava-se flor por toda parte. O corpo talhado.
A varanda silvestre mergulhava no último amanhecer. As portas oliva rangiam. A pedra não segurava mais o vento. E a mulher, cega dos dois olhos, nasceu de vez."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

# 1501



"A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama

O remo firma
O barco corre
De costas

Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço

Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar

E voa"

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

# 1253



"Antônio, meus barcos são velhos, seus cascos trazem pequenas rachaduras, se enchem de mar. Submersos, velam as minhas funduras.
Mas há um, meu querido, que está sempre a correr. A proa indefesa a te lançar no reduto de minha ternura."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Sílvia Bernardino

# 1224



"Minha avó bordava a tristeza dela em toalhas de mesa. Linho, ponto cruz, arremate."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Rosa Paixão

# 1195



"Antônio, meus barcos são velhos, seus cascos trazem pequenas rachaduras, se enchem de mar. Submersos, velam as minhas funduras.
Mas há um, meu querido, que está sempre a correr. A proa indefesa a te lançar no reduto de minha ternura."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Filipa Bocchi

# 1156




"Encontraremos náufragos. Tristes como nós, mortos. Outros embarcaremos com vida. E no silêncio lento recuperemos o sol em seus cabelos. E os faremos meninos outra vez."

Texto: Lorena Kim Richter
Fotos: Ana Gilbert e Peter A. Gilbert

# 1080



"Quando chegaram ao rio, a noite rabiscava amarelo a lua crescente. A música e a dança deram lugar a vozes baixinhas e mãos ligeiras. Um por um, os barcos escapuliram da caixa. Um por um, começaram a navegar. Brincavam com as pequenas ondas e ameaçavam tombar, atrapalhavam-se com algum galho e perdiam-se na ramalheira carregada de flores debruçada sobre a água . Mas chegou a hora de todos zarparem. Barcos miúdos à vela feitos das pequenas inutilidades do dia. Corriam o rio!"

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Elisabete Antunes

# 1015



"As esquinas de nossa cidade em que me aguardas a todo tempo deixaram de ser caminhos que se tocam. Lembras daquela brincadeira em que grudávamos tira sobre tira de papel com cola de água e farinha e criávamos cruzes, encruzilhadas, estrelas, raios de rotunda? Não. Não tens jeito de criança. Vi-te outro dia, nem cinco anos tinhas, jogando bolinhas de papel na contramão da escada rolante. O guarda brandiu o seu cassetete de borracha. Só querias ver se as bolinhas voltavam. Para ti."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Carina Martinho Coelho

# 1007



"As esquinas de nossa cidade em que me aguardas a todo tempo deixaram de ser caminhos que se tocam. Lembras daquela brincadeira em que grudávamos tira sobre tira de papel com cola de água e farinha e criávamos cruzes, encruzilhadas, estrelas, raios de rotunda? Não. Não tens jeito de criança. Vi-te outro dia, nem cinco anos tinhas, jogando bolinhas de papel na contramão da escada rolante. O guarda brandiu o seu cassetete de borracha. Só querias ver se as bolinhas voltavam. Para ti."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert

# 928



"Algumas folhas sobre a mesa e você correndo. Do outono que a faz bela, entardece.
Seu vestido desbotado ainda rodopia .Os cabelos esvoaçam brancos.
Do desejo você não leva nada a ser vento."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Luciana Esteves 

# 842



"Um céu azul, um último café. O enegrecimento lento e denso. Nuvens pesadas e vento. Um cano rompe, chove em meu quarto, a minha sala dá-me um lago que busco secar com panos gastos que nada absorvem. A chuva não cabe em panos."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Carla de Sousa

# 825



"Deixou a capela e sentou-se diante de uma lápide coberta por um arbusto de flores fartas, rosas. Aglomerado de beleza que curvava a ramalheira. Passarinhos nela se recolhiam, lagartos fugidios se espreguiçavam em pedras quentes. Sol do entardecer. - Cemitérios são incríveis pátios da paz, lugar de nossos silêncios - pensou. Jardins cobertos por azuis a se apagarem, o céu telhado."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Rosa Paixão

# 818



"A bolsa rompe. Mais um cano a me trazer o mar. Uma delicada embarcação traz quatro letras em seu casco: E L I S. Abre-se a fenda que te faz nascer revolta. Como gritas. Busco-te. Cheiro-te a pele envolta em panos que não cabem em ti. E te beijo a pequena cabeça .Se eu fosse bicho te lamberia. Queria ser bicho em estábulo quente de terra pisada. Bicho carece de palavra. Só cala. Beijo-te outra vez. Outra fenda se abre e traz a palavra revolvida: Aquela que diz o amor."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Luciana Esteves

# 810



"Cascalho, fazia tempo que não se lembrava de seu som. Pedras paridas da água que se amontoavam debaixo de seus sapatos e desvirtuavam o seu andar. Pedras à beira de alguma infância remota..."

Texto: Lorena Kim Richter
Foto: Ana Gilbert