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# 1676



"Querido Ausente, 
Para chegar ao teatro, faço sempre a rua de São Paulo. O mesmo são Paulo que cegou por ter visto Cristo. Cegou para depois voltar a ver. Quantas vezes terás que te enganar até acertar? Quantas vezes terás de desacreditar até estares preparada para a confirmação? Por quantas mágoas terás que passar até que a dor não passe de mero conceito? Quantos desamores até veres o amor? Crer para ver ou ver para crer? "Senhor, que queres que faça?", gritou São Paulo. Como recomeçar?, grita a geometria europeia. A minha bisavó Ana tinha uma figueira no quintal de sua casa. Ali passei parte da minha infância. Ela ficava sentada no banco que estava debaixo da figueira, a ver-me brincar. Não me lembro a que brincava eu. Brincava quase sempre sozinha, mas as crianças não precisam de mais crianças para poderem brincar. Brincam a qualquer coisa, e do nada criam casinhas e histórias. E criam porque desconhecem o valor da Coisa. E a Coisa afinal que valor tem? Talvez goste tanto de figos porque me lembram o tempo em que a Coisa não existia. Era ausência. Longe da eloquência persuasiva da sabedoria, os figos são Cordeiro e Leão ao mesmo tempo. Perto das figueiras, não há mísseis, atentados, ou enganos. Há meninas de quinze anos com rapazes de dezassete a beijá-las. Os figos são a memória da inocência do mundo, são a terra prometida.
Beijos da tua rapariga simples"

Texto: Susana Sá
Foto: Cristina Vicente

# 1661




"Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes que sinto serem elas, as ruas, a observarem -me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais "é a vida!", "são todos uns ladrões" ou " amanhã vai chover ". No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:" São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. "Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais -caso existam - que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples"

Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert