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# 2886



[a minha claustrofobia]

Claustrofobia:
estar fechada
e imobilizada,
dentro de uma sala vazia,
com a porta escancarada.

Texto: Andreia Marques
Foto: Francisco Válga

# 2879




[entardeço]

Entardeço.
Adenso o pensamento.
Quase enlouqueço.
Enfraqueço e entorpeço.
Emudeço o sentimento.
Arrefeço, mas prevaleço.
Contrassenso.
Anoiteço.

Texto: Andreia Marques
Foto: Cristina Vicente

# 2813



[a minha claustrofobia]

Claustrofobia:
estar fechada
e imobilizada,
dentro de uma sala vazia,
com a porta escancarada.

Texto: Andreia Marques
Foto: Carla de Sousa

# 2764




[rendilhada]

Vesti a renda vermelha e frágil.
É fina, macia e moldada às curvas do corpo.
Ninguém a vê. À renda.
Traz sede nos lábios
mas ninguém sabe.
Porque ninguém prova.
A sede é improvável.
Como o meu corpo não é meu.
É da renda vermelha que me despes,
quando me reconheces em ti,
nas fragilidades que vestes.

Texto: Andreia Marques
Foto: Carla de Sousa

# 2758




[como estás?]
- Como estou?
(como o orvalho gelado,
ao sol de uma manhã de inverno,
depois da noite mais longa
e fria de todas.)
- Bem, e tu?

Texto: Andreia Marques
Foto: Helena Abreu

# 2724




[como estás?]
- Como estou?
(como o orvalho gelado,
ao sol de uma manhã de inverno,
depois da noite mais longa
e fria de todas.)
- Bem, e tu?

Texto: Andreia Marques
Foto: Cristina Vicente

# 2620




[repara-me]
Olha-me nos olhos.
Olha-os profundamente.
Repara-os com tempo.
Despeja neles a verdade,
e apenas a verdade,
do que vês quando os olhas.

Texto: Andreia Marques
Foto: Larissa Cavalcante

# 2598



[assim assim]
Não quero um amor morno,
uma tristeza assim assim,
uma dor que não sangra.
Não!
Não sei ser esse meio termo de coisa nenhuma.
Preciso de suor, lágrimas ou gargalhadas.
De tudo ou nada.

Texto: Andreia Marques
Foto: Crow Xposure

# 2596




[passado]
Memórias são recortes rasgados,
embebidos em álcool e solidão.
Memórias são fardos pesados,
de gritos engolidos na escuridão.

Texto: Andreia Marques
Foto: Raquel Ferreira Coimbra

# 2592




[renascer]
Grita menina, grita.
Grita até não poderes mais.
Grita o sangue, a carne,
grita os pulmões!
Grita tudo.
Grita-te para fora de ti.
Deixa sair as vísceras,
com as mágoas e as frustrações.
Arranca de ti as tristezas,
as ansiedades e todas as emoções.
Mas grita agora menina.
Que o silêncio esgota-te.
E grita bem alto,
que a tua voz está pronta,
e tu precisas de renascer.

Texto: Andreia Marques
Foto: Regislayne Morais

# 2584




[passado]
Memórias são recortes rasgados,
embebidos em álcool e solidão.
Memórias são fardos pesados,
de gritos engolidos na escuridão.

Texto: Andreia Marques
Foto: Sónia Silva

# 2567



[só]
Poeta só.
Porque só é a solidão de um poema.
Nevoeiro é o que vejo dentro do peito.
Rarefeito o racional, banal o carnal.
Bacanal de emoções vãs.
Só está a solitude de uma prosa.
Nua de versos ou ritmos.
Crua e incerta
inserta a solidão no poeta.
Fico só com estas letras.
Chove do lado de fora da janela,
dentro do peito só nevoeiro,
orvalho e melancolia.
Só.

Texto: Andreia Marques
Foto: António Carreira

# 2547



Passado pesado,
fechado num charco de memórias.
Sou reflexo dele.
Das voltas e voltas,
das noites revoltas.
Sou ele. Sendo eu.
Nas vidas que sonhei,
nas vozes que calei,
sou os livros que li à luz da lua.
E a chama que apaguei, perdura.
Sinto-lhe o cheiro de outrora,
no sabor salgado da memória.

Texto: Andreia Marques
Foto: Cristina Vicente

# 2525



[dor-mente]
Ah esta dor premente
da mente que pressente,
que entre a razão e a emoção,
há trilhos sinuosos de escuridão.

Texto: Andreia Marques
Foto: Peter A. Gilbert

# 2520



[renascer]
Grita menina, grita.
Grita até não poderes mais.
Grita o sangue, a carne,
grita os pulmões!
Grita tudo.
Grita-te para fora de ti.
Deixa sair as vísceras,
com as mágoas e as frustrações.
Arranca de ti as tristezas,
as ansiedades e todas as emoções.
Mas grita agora menina.
Que o silêncio esgota-te.
E grita bem alto,
que a tua voz está pronta,
e tu precisas de renascer.

Texto: Andreia Marques
Foto: Francisco Válga

# 2512




[só]
Poeta só.
Porque só é a solidão de um poema.
Nevoeiro é o que vejo dentro do peito.
Rarefeito o racional, banal o carnal.
Bacanal de emoções vãs.
Só está a solitude de uma prosa.
Nua de versos ou ritmos.
Crua e incerta
inserta a solidão no poeta.
Fico só com estas letras.
Chove do lado de fora da janela,
dentro do peito só nevoeiro,
orvalho e melancolia.
Só.

Texto: Andreia Marques
Foto: Ana Gilbert

# 2504



[as lágrimas que não chorei]

Desfiz-me em escuridão.
Escorri pela rua na sarjeta.
Fiz-me rio viscoso e espesso.
Não sentia a forma, nem o corpo.
Sabia que escorria, que tinha de escorrer.
E sentia que me feria na pedra fria onde escorria.
Calçada, calcada. Sentia-me rasgada.
Mas água não rasga.
Estava cada vez mais suja. Mais densa. Mais escura.
Não era água. Não.
Mas continuava a escorrer. Rua abaixo. Rua adentro.
Embati e parei. A teus pés.
Senti-lhes o calor no peso que carregam.
Olhaste-me e fugiste.
Não mais escorri.
E então entendi que eu não era água.
Eu, era lágrimas.
Todas as que não chorei.
Todas as que engoli.
Todas as que pintei,
derramei. Em tons negros de solidão.

Texto: Andreia Marques
Foto: David Sineiro