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# 1767



"Dizem-te para subir ao topo da montanha o mais rapidamente possível. Dizem-te que quando alcançares o cume, terás conseguido tudo!
E depois de tudo? O vazio.
Segues lento, na direção oposta porque acreditas que é na raiz que encontras a tua essência plena. 
Quem sobe rápido e sem olhar a meios para alcançar o cume, atropela-se a si e aos outros. 
Lá ao fundo, regressas só, sem atropelos, sem pressas para te encontrares. Haverá algo de mais belo para almejar?
Segue lento e quando chegares, avisa." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1758



“Desde que foste embora, o mundo deixou de girar. Sabes?”

Texto: Paulo Kellerman
Foto: Tânia João

# 1747



"Há quanto tempo estamos em obras?
Quais obras?
Estas... o chão coberto de plástico, as paredes esbranquiçadas, as escadas que não me permitem sequer entrar ou sair de casa de tão atoladas que estão.
Está aí esse escadote.
Pois está, por onde é que achas que eu vou, finalmente, sair de casa? Só tenho esta janela para me escapar e, nunca lhe percebi a utilidade, mulher, nunca. Quem abre uma janela numa casa a uma altura inacessível ao vislumbre da paisagem que a rodeia? Quem?
Eu.
Porquê?
Pelo mesmo motivo das obras e do aparecimento repentino desse escadote que sobes, inseguro com a possibilidade da queda.
Isto treme por todo o lado. 
Também eu tremia quando ouvia o rodar da tua chave na porta de entrada.
O barulho da minha chave faz-te tremer e tu inicias obras que nos mantêm presos dentro de uma casa sem vista para o exterior. És louca?
Já não. Estás a subir e sei que vais descer para o outro lado. Nessa altura, as obras terão terminado e eu deixarei de tremer." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1723



"Pé ante pé, degrau a degrau, subimos.
Cabeceaste em cada um deles, o som era lindo de se ouvir, apesar do teu peso.
Quando por fim, me livrei de ti, verifiquei que o plástico se tinha rasgado num dos degraus de alcatifa onde ficaram impressas manchas do teu sangue. Mesmo morto consegues irritar-me. Uma carga de trabalhos para me livrar de ti e logo agora que a senhora da limpeza se demitiu."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1703



"Espreito à janela todos os dias. Observo-te a dormir. A tua respiração parece mais tranquila do que quando partilhávamos o mesmo leito.
Esta noite, espreito-te de novo. O vidro está baço. Revestiste o quarto com plástico. Vais pintá-lo?
Não, entra.
Posso mesmo entrar?
Entra e deita-te.
Em cima do plástico não é agradável, mas quero tanto dormir ao teu lado e deito-me.
Deixo-te amarrar as mãos e os pés do meu corpo. Sinto-me feliz por, finalmente, te renderes à minha fantasia sexual, apesar de não envolver plástico. 
Estás pronto?
Digo que sim, tal como o meu membro o dissera muito antes da minha boca.
Ótimo. Acabei de ver o Dexter."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1694



"Tento o acerto caminhando entre ímpares. Multidões distraídas perseguem existências aceleradas. Parecem alegres, as vidas dos outros. A minha nunca. Escolto passos. Encosto, tanto quanto mo permitam, o corpo e a indecência. Sinto cheiros distintos buscando pistas que encaminhassem para a norma. Nada. Não há quem me reconheça ou acolha. Sigo vadio."

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Tânia João

# 1679



"No melhor pano cai a nódoa?! A sério? É essa merda que tens para me dizer?
Não é o melhor pano! Não é uma nódoa! É um buraco que foste escavando dia após dia, após dia... E que só agora lhe consigo sentir a textura desfiada. E eu que nem sou de pano."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1665



"Sempre quis passar despercebida, vestia-se de tons escuros e tudo. Até se julgava invisível aos encostos de outros seres da mesma espécie, por vezes, de estatura maior. Era o único argumento com que os desculpava: o campo de visão de quem tem mais de metro e meio. 
Mas apesar de se sentir invisível, foi-se apercebendo que era ela a criadora dessa ilusão. Todos a viam e isso é que, de facto, a incomodava. 
Certo dia, decidiu vestir o casaco da avó, o chapéu da tia da França e o lenço da vizinha. Pintou o cabelo de vermelho ou talvez tenha pedido a cabeleira à prima que está a estudar para ser artista. As cores vibrantes concretizaram o seu desejo: tornou-se despercebida e, no entanto, tão visível a quem estivesse realmente de olhos abertos."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1644



"Mas há momentos (raros) em que existir simplesmente preenche todos os vazios de sentido. É neles, na serenidade de quem se resigna ao facto de que a vida é complicada mas vale a pena, que devemos começar a procurar a felicidade."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Tânia João

# 1634



"De todas as vezes que me obrigaste a comer sopa em criança, guardei cada uma das molas que usavas para me apertar o nariz. Deixava de respirar e tinha de abrir a minha pequena boca para onde atiravas uma colher daquela mixórdia que dizias fazer-me bem. Sustive o vómito tantas vezes, mãe, e tu foste ficando sem molas para estender a roupa. Hoje, já crescida e cansada encontrei a solução para não me obrigarem a comer o que a vida me quer dar. E funciona, vê tu bem. Da tua sopa não lhe sinto a falta, de ti, sim e, como sei que onde estás não se fazem sopas, decidi juntar-me a ti."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1616



"Tudo se transforma nas ruínas do que foi."

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Tânia João

# 1606



"Escorrem-me lágrimas por um único fio de cabelo. Não mereces mais do que um fio e, no entanto, as lágrimas são tantas..."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1592



"Vivera e morrera naquela casa. Acabou sozinha e fora enterrada no lugar dos sem-nome. Apenas um número, 1189, cujo terreno que, com o tempo, seria de um outro corpo destinado à sua decomposição e assim sucessivamente.
E por essa razão, porque a matéria desaparece, mas a alma permanece, decidiu ficar a habitar naquela que fora sempre a sua casa, não fosse ela ser invadida por outros corpos. Qualquer tentativa seria, por ela, assombrada, não por maldade, mas para preservar a sua existência. Não quis descansar em paz. Quis ficar em casa para sempre."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1583



"O seu único talento: descortinar as subtilezas da vida."

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Tânia João

# 1579



"Nunca entendera a expressão "dar pérolas a porcos". Para que quereria um porco usar um colar de pérolas? As pérolas preciosas criadas pelas ostras e cuspidas diretamente para os pescoços femininos em festividades. Quantas terão tido esse real privilégio? Quantos desses pescoços desnudados vestiram apenas uma reles imitação, oferecida por um tal senhor, para lhes dar o ar de altivez desmerecido? Um porco é um porco e não precisa de pérolas para ser um animal mais nobre."

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1570



"Será a última vez?
Vou-te ter como se fosse...
Chegarei a ti, onde me esperas sempre, decidida a contemplar aquele lugar com a sua melhor recordação. Também ele guarda lembranças, constrói a sua história com o que rouba de nós. Assimila cada uma das sensações que fremem intensamente no ar. 
Aguarda-me, mas será outra a chegar por mim. Concebida em sangue que corre na ausência, alimentada pela fome de te ter. Serei o que nunca fui e tu nunca pensaste existir. Enclausurada em tempo que se perdeu. Um tempo que aproxima desejos, quebra pudores e exacerba o apego.
O reencontro de existências que se dissolvem numa só. O meu corpo a tomar conta do teu. Suores absorvidos pela pele na ressaca de um vício impossível de curar. A levitação do mais insano dos prazeres. Assomamos à esfera da utopia, onde só juntos poderemos chegar.
Abandono-te aí... Regressando pelo trilho construído em crenças estilhaçadas. Convicções continuamente reerguidas que não te cansaste de arruinar. Regresso na ousadia de provares o melhor dos dois. A excitação que desconhecias ser possível de sentir...
Liberto os sentidos impregnando de memórias os teus. Preso no que recusavas dar, arrastarás a loucura na busca do que só eu poderei saciar. Pedaços de nada, matéria sem cor, vestígios ocos do sonho redigido em nós.
Irónico amor que na última vez mais se faz ressurgir..."

Texto: Catarina Vale
Foto: Tânia João

# 1565



"Lavo daqui as minhas mãos! O trabalho sujo é da tua responsabilidade: o sangue que te corre entre os dedos, lambo-o para te proteger. É por amor que o faço, não por ti." 

Texto: Sandrine Cordeiro
Foto: Tânia João

# 1557



"Marta Elétrica não tomava banho há muito tempo – ficara traumatizada com os choques na banheira de criança.
Um dia foi apanhada por uma chuvada de Verão, sem nenhum lugar onde se abrigar.
Marta agora brilha ao longe, porém cheirou a esturricado no bairro durante semanas."

Texto: A. M. Catarino
Foto: Tânia João